7 características essenciais para criar um protagonista inesquecível

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Um protagonista inesquecível não nasce do dia para a noite. Ele é fruto de um extenso trabalho de observação e reflexão do escritor.

O personagem principal de uma história, assim como todos nós, é munido com um conjunto de personalidade, histórico, valores e experiências que fazem dele um ser único, passível de erros e acertos.

No entanto, ao elaborar uma narrativa, a pergunta se repete: como construir o protagonista?

E a preocupação não é à toa. Afinal, estamos falando do dono da ação, sem o qual não há história.  Mundos mirabolantes, ideias incríveis e reviravoltas inusitadas podem cair por terra se o leitor não se envolver com o personagem.

Por isso, em seu livro Story. Substância, Estrutura, Estilo e os Princípios da Escrita de Roteiro, o autor Robert Mckee dedica um capítulo inteiro apenas para o protagonista. Segundo ele, personagem e enredo têm a mesma importância e um não existiria sem o outro.

Com isso em mente, selecionei as 7 características mais importantes citadas por ele para a elaboração de um protagonista inesquecível.

Elaborando o seu protagonista

1. Tem forte determinação

Seu protagonista precisa ser determinado. Não há escapatória. Um personagem preguiçoso, que não sai do lugar não é interessante.

O leitor quer viver uma nova experiência através da narrativa, então dê a ele um protagonista com força de vontade, que supera obstáculos, vai a lugares diferentes e busca uma vida repleta de significado.

Você não precisa cair no lugar comum. Não precisa escrever uma história cheia de drama e sofrimento se não quiser. Mas precisa, sim, pensar em um personagem que tem força para continuar a sua jornada diante das adversidades.

2. Tem um desejo definido e consciente

A determinação por si só é quase nada. É preciso estar determinado a realizar alguma coisa. Por isso, seu protagonista precisa ter um desejo definido e consciente, um foco, um objetivo claro que o move nos altos e baixos da narrativa.

Pense em um desejo simples para começar, mas que condiga com o que você quer transmitir na sua história. Digamos que o seu protagonista está determinado a ir a um restaurante de comida japonesa no fim do dia, mas não tem dinheiro.

Como ele conseguirá dinheiro? Alguém vai com ele? De quanto dinheiro ele precisa? Ele quer ir ao restaurante mais próximo ou a algum específico?

Com perguntas simples você define com precisão o desejo consciente do seu protagonista e mostra ao seu leitor “é nessa busca que eu quero te levar”.

3. Tem um desejo contraditório e inconsciente

Claro que não podemos facilitar tanto assim a vida – afinal, a contradição é parte do ser humano. Além do desejo definido, às vezes é interessante trabalhar também com um desejo contraditório e inconsciente.

Digamos que o nosso protagonista inesquecível, apesar de estar determinado a fazer qualquer coisa para ganhar dinheiro e jantar no melhor restaurante de comida japonesa da cidade, ele tem preguiça de sair de casa. Muita preguiça. Ele não percebe, mas o leitor sim.

Aos poucos, com muito cuidado, o escritor planta indícios de que talvez ele se contentaria a juntar dinheiro suficiente para pedir pizza.

4. Tem a capacidade de seguir o seu Objeto de Desejo de maneira convincente

Mesmo assim, o leitor precisa ser convencido de que o protagonista é capaz de atingir seu desejo consciente. Nosso personagem pesquisa, sabe qual é o melhor restaurante, quanto custa comer lá, traça um plano mirabolante para conseguir dinheiro.

Talvez ele tenha um motivo especial para o jantar. Uma lembrança. Quer levar alguém – e quem ele leva também determina o valor imbuído nessa ação.

Por exemplo, se ele está desempregado e quer levar os pais, o que ele quer provar? E se for um amigo? Um interesse romântico?

E é nesse ponto que, mesmo que o seu protagonista inesquecível esteja desempregado, é preciso convencer o leitor de que ele é capaz de seguir com o plano, de que ele conseguirá dinheiro até o final do dia.

5. Tem que ter ao menos uma chance de atingir seus objetivos

A luta não pode ser em vão. O personagem precisa ficar próximo do seu objetivo, mesmo que por um momento. E é aqui que entra o jogo de conflitos.

A narrativa acontece através de conflitos. Não há história quando está tudo equilibrado, na santa paz. Por isso, nosso protagonista passa por uma variação de positivo e negativo o tempo todo até o clímax – que pode, ou não, culminar na realização do seu objetivo.

Digamos que o personagem do exemplo conseguiu um freela com um amigo que precisava de ajuda na loja naquele dia (positivo), mas, chegando lá, esse amigo já tinha contratado outra  pessoa (negativo). Voltando pra casa, ele decide vender o violão que ganhou do avô morto (positivo), mas o violão vale bem menos do que ele esperava (negativo). Ele volta pra casa, sua vizinha idosa o convida para um café e ele pensa em roubar a carteira dela (positivo), mas é flagrado por ela e expulso da casa (negativo), etc.

Perceba também que a progressão de riscos assumidos pelo protagonista aumenta à medida que a narrativa se desenvolve. Em todas as situações, ele estava a um passo de conseguir o dinheiro necessário, mas algo acontece e o impede de atingir seu objetivo.

6. Precisa causar empatia, mas não necessariamente simpatia

Não caia na armadilha do certo/errado, bom/mau, etc. Você não precisa fazer com que o leitor goste do seu personagem. No entanto, o protagonista inesquecível precisa ser empático, ou seja, o leitor precisa se colocar no lugar dele, viver o que ele está vivendo, sentir o que ele está sentindo.

O leitor pode até achar que as ações do protagonista não condizem com seus valores, mas isso não pode impedir que o protagonista lhe cause empatia. É por isso que, muitas vezes, nos apegamos tanto a personagens que fazem coisas “erradas”, como roubar, matar, maltratar, etc.

Um protagonista muitas vezes precisa não só colocar em risco a sua vida, mas também seus valores, colocando sempre em xeque sua credibilidade. Se o leitor entender o que levou o personagem a fazer o que fez, a dinâmica da narrativa segue e o escritor obtém sucesso.

7. Suas qualidades inatas são reveladas através das escolhas feitas sob pressão

Uma narrativa bem construída não entrega conclusões de bandeja, ela dá elementos para que o leitor as construa. Digamos que o nosso protagonista tenha tido uma oportunidade de matar a sua vizinha idosa antes de tentar roubá-la, mas não o fez.

Ele não precisa dizer “não vou matá-la porque ela é minha vizinha, amiga de muitos anos, etc” para que o leitor perceba isso. Pense que seu enredo é uma mapa de um tesouro. Plante as dicas para que, durante a leitura, o cenário vá se construindo. Insinue tanto que eles são amigos e que ele vai roubá-la, mas não deixe tudo às claras.

Será que ele vai mesmo fazer isso com ela? E como ele fará? Faça com que as decisões do protagonista ditem o rumo da história e revelem sua personalidade.

Liberte o seu protagonista inesquecível

O livro de Robert Mckee traz várias reflexões incríveis sobre o fazer literário. Uma delas é a comparação entre som e conflito:

O som está para a música assim como o conflito está para a história.

Por isso, ao elaborar a sua narrativa, pense sempre no encadeamento de conflitos que o seu protagonista enfrentará.

Ter ideias e jogar as palavras no papel é fácil. Portanto, o verdadeiro desafio da escrita não é o que escrever, mas como. Como articular as palavras, como envolver o leitor, como organizar as cenas, como fazer a história seguir em frente.

Nunca se esqueça que escrever histórias não é emular uma vida simples, mas sim uma vida vivida ao extremo. Por isso, não economize seus personagens – mergulhe-os até o fundo dos seus conflitos.

Vamos juntos!

Escrever uma história não é tarefa fácil, demanda tempo, dedicação e estudo – mas não precisa ser uma atividade solitária. Criei o site Oficina de Escrita para te ajudar nessa tarefa, sempre trazendo conteúdos ricos e esclarecedores.

Por isso, quero te convidar para acompanhar meu trabalho

Segunda Prosa, Quarta Poesia - Mylle Silva

Sobre o autor

Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).

4 comentários

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  • Amei seu artigo mas tenho uma duvida: …
    Se a minha personagem é engraçada,meiga e fofa e o personagem não pode ser “muito perfeito”então ela ter raiva ou ser irritada e sentimental pode ser uma falha ou ter um ponto fraco seria uma falha melhor?se nem essa opção é Boa qual é a melhor opção de falha?

    • Oi, Sebastião! Para uma personagem, um ponto fraco seria qualquer coisa que o atrapalha de atingir o seu objetivo. Assim, ao invés de pensar em características positivas ou negativas, pense no que a personagem quer e o que a afasta do caminho. Se você pensar na Elizabeth de “Orgulho e Preconceito”, o grande inimigo dela é sua grande qualidade também: o fato dela ser tão perspicaz.

Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).