4 atitudes de artistas que afastam seguidores (e como revertê-las)

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Certa vez, escutei a seguinte frase em um podcast: o romantismo estragou tudo. E o comentário é muito verdadeiro. O romantismo ensinou o artista a sonhar, a mirar um ideal – e a usar um filtro que o distancia da realidade. E é esse filtro que causa uma série de atitudes que afastam os artistas do seu público.

Antes de continuar, quero te pedir um favor: lembre-se de um artista que você admira e segue nas redes sociais. Pense em alguém que você considera um grande sucesso. Se for preciso, dê uma olhada no perfil dele e leia com atenção suas últimas postagens.

Guarde suas impressões, nós as usaremos depois.

A ideia do artigo abaixo é inspirada no livro Real Artists Don’t Starve, do autor Jeff Goins. Além de livros, ele tem um blog, um podcast e ministra vários cursos legais (tudo em inglês).

Ouvir as observações do Jeff sobre “artistas famintos” me causou uma enorme identificação, porque eu agia como ele descreveu. Foi uma longa caminhada de autoconhecimento até perceber que minhas atitudes ante o meu trabalho só afastavam as pessoas.

Espero que você, depois de ler o artigo, não demore tanto tempo quanto eu para mudar de atitude em relação ao seu trabalho criativo e possa se focar no que importa: produzir boa arte.

Artistas que afastam seu público

Artistas que esperaram pelo grande momento

Eles sonham com o grande momento em que serão descobertos por aquele agente literário, aquele olheiro.

Que basta estar no lugar certo e na hora certa para que a magia aconteça.

Que aquele post genial de 100 palavras no instagram os levará ao topo do mundo.

Que a trilogia da vida deles terá 30 personagens e se passará em 50 multiversos – e está tudo lá, pronto na cabeça deles.

Que todo o seu trabalho está permeado por uma aura de genialidade e, assim que começar a produzir, será o maior sucesso que o mundo já viu.

Sonhar é maravilhoso, mas apenas sentar e esperar pelo grande momento pode ser ruim. Todos adoram histórias de artistas que, do dia para a noite, parecem ter sido descobertos pelo mundo.

O que ninguém gosta de pensar é o quanto o artista trabalhou para que isso acontecesse. Quantos “nãos” teve que escutar. Quantas vezes passou necessidades financeiras. Quantas horas passou sentado, produzindo, sem que ninguém soubesse de sua existência.

Artistas que culpam a tudo e a todos

Eles gostam de usar e abusar do “se…” para culpar pessoas e circunstâncias por não ter atingido os seus objetivos.

Se eu tivesse tanta sorte como fulano, estaria no mesmo lugar que ele.

Se eu tivesse nascido em berço de ouro como ciclano, teria conseguido fazer o que eu queria.

Se todos esses problemas não tivessem acontecido comigo, eu teria deslanchado minha carreira.

Se eu tivesse começado antes.

Se eu tivesse feito a escolha X no lugar da Y.

Se meus pais fossem assim ao invés de assado, tudo teria sido diferente. (um clássico)

O “se…” é uma válvula deliciosa de usar porque funciona. Conjecturar como as coisas poderiam ter sido melhores dá uma sensação momentânea de segurança, porque tira a culpa das nossas costas e a transfere para qualquer outro lugar.

Em alguns momentos, é necessário fazer o exercício do “se…” em nossas vidas, mas não se engane: afundar-se nele só causará depressão e te fará perder um tempo que você poderia usar para criar.

Artistas que vivem reclamando

Eles passam muito tempo focando no lado negativo das coisas, criticando tanto o meio em que estão quanto a si mesmos. Nunca há tempo suficiente, dinheiro suficiente ou oportunidades ideias.

Esses artistas também costumam criticar os outros e a forma como os demais chegaram onde estão. Eles sentem inveja do que o outro tem e investem tempo inventando desculpas para explicar porque o fulano conseguiu e ele não.

Fulano conseguiu passar no projeto (ou ganhar um prêmio) porque é amigo de um curador.

Ciclano conseguiu publicar seu livro pela melhor editora porque é filho de não sei quem.

Beltrano é bem falado nos jornais porque tem dinheiro pra pagar as matérias.

E assim por diante.

Conhecer a caminhada de artistas pode ser proveitoso para traçar a sua, desde que você não torne isso uma fonte de críticas ao outro. Ver artistas mais jovens e que, aparentemente, parecem ter trabalhado menos que você para chegar onde estão pode ser um golpe pesado – mas não faça com que isso o torne amargo e reclamão.

Artistas que ficam parados

Eles sabem o que querem, têm tudo pronto na cabeça. Já traçaram seus caminhos, elaboraram suas obras primas cinquenta vezes e estão prontos para deslanchar.

Só falta sentar e fazer.

Como eu disse antes, sonhar é ótimo, mas o que nos move é a ação.

Existem muitos artistas em gestação por aí. Eles escrevem alguns contos e os guardam na gaveta; fazem alguns desenhos e escondem em seus drives na nuvem; compõe suas músicas que ninguém conhece. Mas, quando falam sobre seu trabalho, contam sobre aquele projeto grandioso que estão prestes a fazer – e nunca o fazem.

É comum encontrar artistas que não agem porque esperam o grande momento, alimentam-se da culpa ou vivem reclamando – talvez até tenham as três atitudes ao mesmo tempo.

A vida nem sempre nos proporciona condições ideais para tirar nossas produções do mundo das ideias, mas ficar parado também não nos ajuda.

Acredite em mim: a frustração de ver que o tempo passou sem que você tenha feito nada é bem pior do que fazer apesar de tudo.

Se essas são as atitudes que afastam artistas dos seguidores, quais são as que atraem? Como tudo o que falo aqui, não existe uma fórmula mágica do sucesso além de muito trabalho, muito estudo e perseverança.


Artistas que atraem seus seguidores

Hora de voltarmos ao artista que você admira e segue nas redes sociais. Você sabe como ele se comporta e quais atitudes dele o inspiram. Você o segue porque gosta do trabalho dele e acredita do valor que ele agrega ao mundo – mesmo que esse mundo seja restrito ao meio em que ele trabalha.

Veja se ele se enquadra no que direi a seguir.

Artistas que possuem uma visão

Ao invés de esperar o grande momento, eles têm uma visão. Eles não se preocupam com os detalhes de como conseguirão o que querem, apenas fazem o que precisa ser feito em prol dos seus sonhos.

Eles sabem que pode dar mais trabalho do que esperavam.

Eles entendem que pode não render um tostão.

Eles se arriscam mesmo que o resultado não seja o esperado.

Eles estão preparados para ouvir muitos “nãos”.

E eles têm a certeza de onde querem chegar.

É essa visão que os move. Pode demorar anos, décadas, não importa. Antes de alcançar o grande momento, é preciso apreciar as pequenas recompensas e aprender com os tropeços do caminho.

Artistas que buscam oportunidades

Ao invés de culpar os outros, eles estão dispostos a falhar quantas vezes forem necessárias até encontrar o seu caminho. Os erros cometidos no caminho são lições ao invés de fardos.

Eles aprendem com tudo o que não deu certo.

Eles deixam o passado no passado.

Eles não perdem tempo pensando em como poderia ter sido.

Nenhum artista é capaz de prever quais frutos podem gerar as sementes dos trabalhos no caminho. Por isso, buscar o que você quer ao invés de culpar os outros e a si mesmo pelo que você não tem é a única forma de chegar àquele grande momento.

Se você tem receio de tentar, um conselho: distribua aquele grande sonho em pequenos passos e comece agora a trabalhar, um pouquinho de cada vez.

Artistas que se responsabilizam pelos seus atos

Ao invés de reclamar e criticar os outros, eles sabem que estão onde estão por seus méritos. Se não conseguiram ganhar um concurso, passar em um projeto, financiar um trabalho ou serem reconhecidos pelo público, é por causa do trabalho que realizaram.

Eles reconhecem que é preciso aprender mais e evoluir.

Eles sabem que precisam passar por etapas até chegarem aonde querem.

Eles entendem que não é uma questão de ser melhor ou pior que o outro.

Assim, mesmo que um fator externo os prejudique, eles ainda saberão lidar com a situação porque possuem resiliência e perseverança.

Artistas que seguem em frente e produzem

Ao invés de passarem a vida sonhando com sua obra prima, eles vão lá e fazem. Eles seguem em frente, projeto após projeto, mostrando ao mundo o que vieram fazer. Continuam estudando, se aprimorando e buscam sempre fazer algo melhor do que antes.

Eles superam suas derrotas e aprendem com elas.

Eles reconhecem seus pontos fracos e buscam formas de melhorar.

Eles se focam no que é preciso fazer e não no que deu errado.

Eles continuam mostrando o seu trabalho, mesmo que pouca gente os siga.

Desistir, para eles, está fora de cogitação. Se precisarem trabalhar para pagar seus estudos na área que pretendem aprimorar, eles trabalham. Se precisarem abrir mão de algo para ter tempo de produzir, eles abrem. Se eles tiverem apenas três leitores fiéis, eles produzem com o mesmo afinco.

O que quer que façam, eles sabem que estão cada vez mais perto do grande momento, um passo de cada vez.

Você é um artista que atrai ou um artista que afasta seguidores?

Como eu disse no início do artigo, eu tinha atitudes que afastavam meus leitores. Bastava que alguém perguntasse como ia o meu trabalho para acionar os gatilhos mentais da culpa e da reclamação.

Mesmo que eu tivesse uma visão, não acreditava nela e preferia ficar parada, esperando a grande oportunidade da minha vida. De alguma forma, achava que um olheiro mágico entraria no meu cérebro e descobriria a grande escritora que vive ali.

Escrevo para te pedir que não se iluda como eu me iludi. Foram anos de frustração que, após descobertos, trouxeram mais frustração ainda, quando percebi o tempo perdido.

Acredito que momentos de tristeza e decepção são importantes; o problema é quando nos focamos neles. É preciso viver a tristeza, aprender com ela e seguir em frente.

Também não adianta muito seguir fazendo as coisas sem o devido preparo – por isso incentivo o estudo da escrita para que seu trabalho evolua sempre. No mais, faça. Além das métricas e do rendimento, faça.

Escreva, desenhe, toque, dance, produza. E, sempre que precisar de uma ajuda criativa a mais, assine a minha newsletter e receba, quinzenalmente, uma seleção de artigos, podcasts e notícias que te manterão em contato com a sua criatividade.


Sobre o autor

Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).

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Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).