A colonização é um processo ao mesmo tempo material e simbólico: Alfredo Bosi e a Dialética da Colonização

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A história de qualquer sociedade pode ser contada através da literatura que ela produziu – e no Brasil não é diferente. E foi seguindo esse fio que o professor e historiador de literatura brasileira Alfredo Bosi compôs o seu livro Dialética da Colonização. Nele, o autor reuniu vários artigos e ensaios seus e tentou delinear os caminhos que nos trouxeram até aqui – desde a famosa carta de Pero Vaz de Caminha até a industria cultural.

Para compor esse post, decidi seguir o exemplo do Brain Pickings (em inglês), um site maravilhoso no qual a autora Maria Popova seleciona as melhores citações de livros, artigos e áudios que são uma mão na roda para quando você quer ter o primeiro contato com as ideias de algum autor.

Dialética da Colonização

A colonização através da força

Alfredo Bosi começa o livro já com uma bela definição de cultura:

Cultura é o conjunto das práticas, das técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência social. (…) Nas sociedades densamente urbanizadas, cultura foi tomando também o sentido de condição de vida mais humana digna de almejar-se, termo final de um processo cujo valor é estimado, mais ou menos conscientemente, por todas as classes e grupos.

Ele fala também sobre o outro sentido de cultura, que supõe uma consciência grupal operosa e operante – e como essa cultura, o ato de cultivar algo, aconteceu durante a colonização do Brasil: através da aculturação.

Aculturar também é sinônimo de traduzir. (…) Mais do que um simples “outro discurso”, como a define o seu étimo grego, a alegoria é o discurso do outro, daquele outro que fala e nos cala, faz temer e obedecer, mesmo quando os fantoches grotescos da sua representação [diabo ou megera] nos façam rir. A alegoria foi o primeiro instrumento de uma arte para massas criada pelos intelectuais orgânicos da aculturação.

Alfredo dedica muitas páginas para falar sobre o trabalho do padre Antonio Vieira, considerado o primeiro humanista brasileiro, defensor dos índios e negros no século XVII. E muitas do que escreveu Antonio Vieira escreveu no seu tempo soa tão atual que me dá medo:

Porque assim como há fantasmas que parecem remédios, assim há remédios que parecem fantasmas.

Pe. Antonio Vieira

Deixem de ser o que são, para serem o que é necessário, e iguale a necessidade os que desigualou a fortuna.


Pe. Antonio Vieira

Em oposição à Antonio Vieira, surge a obra Cultura e Opulência do Brasil, do padre Andreoni, antes protegido por Vieira.

Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles não é possível faser, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente.

Antonil (pseudônimo do Pe. Andreoni)

Uma das melhores observações do livro é sobre a forma que o autor José de Alencar representou o índio brasileiro em suas obras.

A concepção que Alencar tem do processo colonizador impede que os valores atribuídos romanticamente ao nosso índio – o heroísmo, a beleza, a naturalidade – brilhem em si e para si; eles se constelam em torno de um imã, o conquistador, dotado de um poder infuso de atraí-los e incorporá-los.

Já Gonçalves Dias e Castro Alves, ao contrário, captaram os colonizadores como emissários do fim da nação indígena.

Os estudantes de Direito da Academia de São Paulo convidam o jovem Castro Alves para declamar versos libertários. Por um feliz acaso, ele dirá, com enorme êxito, os poemas mais belos da sua pena abolicionista: Navio Negreiro e Vozes d’África (…).

Partindo da frase “it was freedom to destroy freedom” do sociólogo
W.E.B. Du Boi, o autor fala sobre o período pré-abolicionista, quando os interesses das minorias dos senhores de engenho e cafeicultores falou mais alto – qualquer semelhança com o nosso tempo não é mera coincidência.

… a moderação dos liberais de 1831 acabaria, cedo ou tarde, assumindo sua verdadeira face, conservadora. Os traficantes foram poupados; e os projetos iluministas, raros e esparsos, de abolição gradual foram reduzidos ao silêncio. Deu-se ao exército o papel de zelar pela unidade nacional, contra as tendências centrífugas dos clãs provinciais. Vencidos os últimos Farrapos, estava salva a sociedade; no caso, o Estado aglutinador de latifundiários, seus representantes, tumbeiros e burocracia. A retórica liberal trabalha seus discursos em torno de uma figura redutora por excelência, a sinédoque, pela qual o todo é nomeado em lugar da parte, implícita.

E tem essa frase genial do deputado liberal José Bonifácio de Andrada e Silva sobre porque os analfabetos não podiam votar:

Esta soberania de gramáticos é um erro de sintaxe política. Quem é o sujeito da oração? Não é o povo? Quem é o paciente? Ah! Descobriram uma nova regra: é não empregar o sujeito.

José Bonifácio de Andrada e Silva

Para mim, o grande mérito do livro Dialética da Colonização é mostrar, de uma forma clara e objetiva que, uma vez abolida a escravatura, os negros e índios não foram empregados. Como sabemos, foram os imigrantes europeus e orientais que vieram ao Brasil para se tornar mão-de-obra, enquanto os negros tiveram poucas opções.

Extinto o regime legal do trabalho cativo, restavam às suas vítimas poucas saídas:

– ou a velha condição de agregado;

– ou a queda no lúmpen, que já crescia como sombra do proletariado branco de origem européia;

– ou as franjas do economia de subsistência.

A colonização através da cultura

Com o intuito de ligar a cultura atual com o colonização, Alfredo Bosi passa a falar sobre como as relações culturais acontecem hoje – ou melhor, aconteciam no início da década de 90, que é quando ele termina o livro. Assim, ele separa a cultura em quatro esferas diferentes:

  • Cultura universitária;
  • Cultura criadora extra-universitária;
  • Indústria cultural;
  • Cultura popular.

O autor deixa claro que as formas de cultura podem coexistir sem problemas – e, de fato, coexistem cada vez mais na pós-modernidade. A grande questão dessa mistura, para ele, é que ao não se ver onde começa a cultura erudita e terminar a cultura de massa, vivemos uma espécie de colonização cultural mundial.

(…) e agora, já em plena mestiçagem e em plena sociedade de classes capitalistas, estão sendo recolonizadas pelo Estado, pela Escola Primária, pelo Exército, pela indústria cultural e por todas as agências de aculturação que saem do centro e atingem a periferia.

Uma de suas grandes reclamações é que, se antes idiomas como o grego, o latim e mesmo o francês eram ensinados na escola, contribuindo para que a população expandisse seus horizontes, hoje o mais ensinado, o inglês, serve apenas como instrumento e não mais como um conhecimento relevante.

O instrumento [língua inglesa] torna-se fim em si, o que é a definição de tecnocracia.

Creio que as melhores reflexões do livro começam a partir desse ponto. Se antes o autor se colocou em uma posição quase imparcial, de agora em diante ele demarca seu posicionamento contra a colonização que a indústria cultural condena toda a sociedade.

[grandes obras] nunca poderiam ter-se produzido sem que
seus autores tivessem atravessado longa e penosamente as barreiras ideológicas e psicológicas que os separavam do cotidiano ou do imaginário popular.

A erudição e a tecnologia mais moderna não tiram, por si sós, o homem da barbárie e da opressão. Apenas dão-lhe mais um “meio de vida”, isto é, um meio de defesa e ataque na sociedade da concorrência.

O que motiva o trabalho do conhecimento é a vontade de valor. Por essa expressão entendo as aspirações que levam os indivíduos e os grupos à procura do saber e à sua comunicação. Só o que vale, vale a pena.

Barateia-se o juízo de verdade, confundindo-o com o pinçamento de detalhes inflados e subtraídos ao seu contexto de significação.

A pós-modernidade que aceita o delírio do consumível e do descartável, do imediato e do competitivo, não tem recursos mentais e morais para enfrentar a dissipação dos bens, a disparidade das rendas, o desequilíbrio dos poderes e status. (…) Em perspectiva oposta, a cultura de resistência vê a sociedade dos homens plenamente humanizados como um valor a atingir (…) também faz parte da cultura de resistência o resgate da lembrança que alimenta o sentimento do tempo e o desejo de sobreviver.

O autor aponta, no início da década de 90, o descaso com o qual os brasileiros se comportam em relação aos seus trabalhos, nas esferas pública e privada. Tal pensamento, hoje bem difundido, nos faz enxergar a corrupção e o desemparelhamento econômico em que nos encontramos.

Assim, a mesma cultura moderna, que quer jogar na lata de lixo da História a fé nas virtudes revolucionárias da classe operária, precisa pedir aos jovens de todas as classes que creiam e esperem firmemente na redenção pelo trabalho, visto pela ótica burguesa convencional como estrada única para a obtenção da felicidade individual.

Ergótico tanto quanto o marxismo, o reformismo propõe-se transferir para o campo das motivações pessoais a esperança em uma transformação material da sociedade. Para persuadir indivíduos é necessário usar a retórica do liberalismo, o que já vem ocorrendo assiduamente.

Bosi aponta que não havia uma mentalidade para o progresso, apenas para os prazeres individuais e momentâneos. Creio que ainda não há e só tenha aumentado, nos últimos 20 anos, a sensação de que estamos olhando cada um para o seu próprio umbigo.

Barbárie da reflexão: aquele momento cruel da História em que a razão instrumental alheia ao sentido do todo natual-humano serve aos poderes da opressão e da destruição.

Barbárie da reflexão é um termo cunhado por Viço

Quando o crescimento é tomado como um fim, os outros valores ou são descartados ou lhe são subordinados.

Dos meados do século XX em diante, passa a ser colonizada em escala planetária a alma de todas as classes sociais. Colonizar quer dizer agora massificar a partir de certas matrizes poderosas de imagens, opiniões e estereótipos.

Alguém consegue escapar disso aqui?

A colonização é um processo ao mesmo tempo material e simbólico: as práticas econômicas dos seus agentes estão vinculadas aos seus meios de sobrevivência, à sua memória, aos seus modos de representação de si e dos outros, enfim aos seus desejos e esperanças.

E, para finalizar: onde fica o escritor em tudo isso?

Situações vividas ou imaginadas no circuito apartado da experiência individual ou grupal deram à escrita, que as revelou, a sua potência primeira, aquele corpo de intuições e afetos que nada pode substituir. Mas a vivência original precisou absolutamente da mediação de uma forma que a universalizasse, sem a qual não teria franqueado o limiar da expansão literária. O que se vive não se diz sem que se constitua um ponto de vista.

Sobre o autor

Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).

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Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).