9 dicas de grandes escritores que deixarão sua história incrível

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Você já teve a sensação de ler uma história e pensar eu poderia escrever assim também, parece tão simples! No entanto, basta ficar frente a frente com a tela ou a folha em branco para que a confiança desapareça por completo.

Se você é um leitor assiduo do site, já deve ter percebido que sou muito curiosa quando se trata de técnicas de escrita (e, caso essa seja sua primeira visita, te convido a assinar minha newsletter para nunca se esquecer de voltar).

Ao invés de me contentar em ler a história em busca do que posso aprender com ela, quero conversar com autores, conhecer as dicas de grandes escritores.

Tal conversa, no entanto, é uma espécie de telepatia: ferramentas captadas aqui e ali através de manuais de escrita criativa, vídeos, pesquisas e, claro, na internet.

Por isso, antes de começar, quero deixar claro o seguinte: nada de regras, apenas sugestões.

É preciso entender que cada escritor desenvolve tanto o seu processo criativo quanto sua linguagem ao longo da vida.

É uma caminhada de tentativa e erro, na qual os cursos de escrita criativa cumprem o papel mostrar as ferramentas disponíveis a todos — o que não significa que tais ferramentas são de uso obrigatório.

Outro aspecto importante a ser observado é que as dicas abaixo estão alinhadas ao que se pratica hoje na literatura contemporânea. Machado de Assis não escrevia como Mia Couto não só porque são dois escritores distintos, mas também porque viveram em épocas diferentes.

Por isso, ao invés de se prender ao que foi feito no passado, escreva para os leitores de agora.

Mostre, não conte

Eis a máxima da escrita contemporânea, demonstrada por Anton Tchekhov:

Não me diga que a lua está brilhando; mostre-me o cintilar da luz em um vidro quebrado.

Em outras palavras, substitua as meras descrições por metáforas, imagens e ações para enriquecer o seu texto.

Dizer apenas que “a lua cheia está brilhando no céu” é tão pobre que você correrá o risco de perder o leitor. Como leitores, nós queremos viver uma experiência além da lua no céu.

Coloque-se no olhar do personagem. Como fica o ambiente à luz do luar? Como o personagem percebe essa lua? Como ele se sente? (mas sem usar o verbo sentir — eu já chego lá).

Troque a preguiça de prolongar por um deslumbramento de percepção, uma novidade. Aplique essa dica para tudo — desde descrições de ambientes até desenvolvimento de cenas — e verá que, aos poucos, suas histórias ficarão com imagens mais ricas.

Tudo aparece por um motivo

Tchekov foi um dos precursores do fluxo de consciência na narrativa e sabia bem como desenvolver uma história.

Se no primeiro ato você tem uma pistola pendurada na parede, então, no último ato você deve dispará-la.

A observação ficou conhecida como arma de Tchekhov e tem um significado essencial para qualquer texto de ficção: tudo o que é mostrado na história precisa ter uma utilidade, um motivo.

Se é uma arma, dispare-a (ou ameace dispará-la).

Se é um personagem secundário, dê uma função a ele.

Se é uma cena de ação, faça-a fazer diferença para o todo.

Uma história que é um poço de aleatoriedades só tem um destino: ser abandonada pelo leitor por simples desinteresse.

A ponta do iceberg

Ernest Hemingway é um dos grandes romancistas do século XX. Além de elevar à enésima potência a máxima de que o escritor precisa experienciar a vida antes de escrever, ele deixou como legado uma importante lição:

O movimento do iceberg é digno de respeito porque apenas um oitavo dele pode ser visto fora da água.

Com a conhecida Teoria do Iceberg ou Teoria da Omissão, o escritor nos mostra que narrar é a arte de mostrar apenas o necessário, deixando com que o leitor construa por conta própria o restante da história.

Dito de outra forma: trabalhe o subtexto, as entrelinhas da sua narrativa.

Robert McKee, roteirista de cinema, pede que não subjulguemos a inteligência do leitor. A função do escritor é criar labirintos, entregar as peças do romance aos poucos, mantendo o público curioso e desconfiado ao mesmo tempo.

Deixar algumas informações suspensas é a melhor forma de agarrarr o seu leitor até o final da história.

Diminua os adjetivos

Stephen King é um escritor radical. Segundo ele, para ser um bom escritor é preciso ler e escrever de quatro a seis horas por dia — inclusive durante as refeições.

Espero um dia chegar lá. Enquanto isso, sigo algumas dicas valiosas dele.

A primeira delas é diminuir o uso de adjetivos.

Quando combinada ao “mostre, não conte”, faz com que você imagine o que, de fato, você vê na cena que está escrevendo.

Ao dizer “era uma linda mulher”, a frase se torna pobre. A imagem que eu tenho de “uma linda mulher” com certeza é diferente da sua. No entanto, quando opta-se por descrever a beleza dela — talvez física, talvez psicológica — o leitor cria uma imagem única da personagem.

Pergunte-se, sempre: posso substituir esse adjetivo por uma imagem mais interessante para a minha história?

Se a resposta for sim, faça.

Use a primeira palavra que lhe vier à cabeça

King é um escritor profícuo — então com certeza não fica enrolando para achar a palavra perfeita. Deixo que o homem fale por si só:

Lembre que a regra básica do vocabulário é: use a primeira palavra que lhe vier à cabeça, se for adequada e interessante. Se hesitar e ponderar, você vai encontrar outra palavra — claro que vai, sempre existe outra palavra —, mas é bem provável que ela não seja tão boa quanto a primeira, ou tão próxima do que você realmente quer dizer.

A melhor atitude que você pode ter ante a escrita é deixar fluir. Para isso, criar o hábito da escrita diária é uma boa saída.

Quando estiver escrevendo a primeira versão da sua história, coloque tudo no papel — inclusive aquela palavra que você pensou em melhorar. Caso desgoste dela na releitura, lembre-se sempre pode modificá-la quantas vezes for necessário.

Corte os advérbios e locuções adverbiais

Já falei que Stephen King é radical, né? Mas olha, agora só nos resta concordar com ele.

Alguém por aí agora está me acusando de ser chato e detalhista. Eu nego. Acredito que a estrada para o inferno esteja pavimentada com advérbios, e vou continuar bradando isso aos quatro ventos.

Usar a todo momento palavras como rapidamente, ferozmente, apaixonadamente, razoavelmente, etc deixa QUALQUER texto chato — até mesmo artigos em blogs.

Ele diz que corta — sim, corta! — todos os advérbios das suas histórias e, quando os usa, é por não ter outra saída.

(quase larguei um “extremamente necessário” ali e saí correndo)

Por favor, releia a sua narrativa. Se encontrar mais do que três advérbios a cada mil palavras, algo está bem errado.

Jogue fora 10% da sua história

A última das dicas do rei não é bem dele, mas sim de um jornalista que foi seu chefe. É simples e direta:

Termine sua história. Releia. Agora jogue fora 10% do que escreveu.

Se fez um conto com 200 palavras, corte 20.

Se é um romance com 100 mil palavras, jogue fora 10 mil delas.

Essa dica vem de encontro com a arma de Tchekhov: dentre tudo o que você escreveu, deve ter algo inútil e a possibilidade da inutilidade chegar a 10% é grande.

Por isso, não hesite: passe a foice sem dó.

Substitua os verbos de pensamento por ações

Além de ser autor do livro O Clube da Luta, Chuck Palahniuk é conhecido por ministrar inúmeras de oficinas de escrita criativa nos EUA.

Uma de suas dicas mais valiosas é essa: substitua os verbos de pensamento — achou, pensou, soube, entendeu, percebeu, acreditou, quis, lembrou-se, imaginou, desejou — por detalhes sensoriais — ações, cheiros, gostos, sons e sensações.

Eis, mais uma vez, o bom e velho “mostre, não conte” em ação.

Creio que essa seja uma das dicas mais difíceis de seguir, mas temos um bom exemplo em ação para clarificar seu uso.

O escritor George Saunders mostra em detalhes o seu processo criativo no vídeo On Story. Apesar de não ter legendas em português, vale a pena dedicar sete minutos da sua vida assistindo-o.

Ele parte de um adjetivo — babaca — e faz inúmeras substituições até que o sentido de “babaca” permaneça no subtexto sem que seja necessário utilizar a palavra.

Apenas ative a tradução automática do YouTube e veja.

Esqueça o talento, pense em vocação

Para finalizar, quero citar o meu queridinho da vez: Luis Antonio de Assis Brasil.

(…) Por último, um conselho: antes de pensar em sucesso, pense em ser competente. Ser competente não é empecilho para a conquista do Nobel.

O talento para escrita é relativo. Nenhum escritor, vivo ou morto, bateu o martelo sobre sua existência — então quem é você para querer desistir por se achar menos talentoso que qualquer outro?

Pense na carreira de escritor como uma vocação, um ofício para o qual você se dedica e o torna cada vez mais competente.

As dicas que reuni neste artigo são um belo caminho que você pode trilhar. Considere-as pequenos treinamentos aplicáveis a sua escrita.

Experimente o que funciona melhor para você. Combine a sua voz com cada uma delas.
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Sobre o autor

Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).

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Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).