Escrita livre: o que é e como utilizar o exercício para deixar seus textos cada vez melhores

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Sou obcecada pela escrita — ou melhor, pela escrita livre. Acordo e durmo pensando em escrever. Em todas as atividades correlatas (leia-se trabalhos remunerados) faço de tudo para encaixar a escrita, para fazer dela minha principal atividade na vida.

No entanto, para atingir esse estado de entrega total à escrita, saltei da crença na inspiração ao treino diário, num experimento empírico que, ao longo dos anos, descobri ser não apenas utilizado mas também indicado para o desenvolvimento criativo.

Muitos conhecem a tal prática como “manter um diário”. Outros, como Julia Cameron, chamam de “páginas matinais” (morning pages). Porém, foi o professor Peter Elbow o primeiro a cunhar o termo “escrita livre” — ou freewriting.

O que é escrita livre?

Escrita livre é um processo de escrita sem pausas, sem correções, sem edições, sem a necessidade de compartilhar, sem preocupação com a gramática, sem questionamentos e sem pressa.

A sugestão de Elbow é que os escritores escrevam o que quer que seja durante dez ou quinze minutos, todos os dias.

A escrita livre pode ainda ser adaptada para a escrita livre focada, quando o escritor opta por desenvolver algum tema, e para a escrita livre pública, quando os textos produzidos durante o exercício são partilhados dentro de um grupo.

Aconselha-se, na prática da escrita livre partilhada, que os textos sejam partilhados em um grupo equilibrado, que já se conheça há algum tempo ou ainda sob a mediação de um escritor mais experiente.

Como utilizar a escrita livre?

Apesar da escrita ser minha obsessão, foram inúmeros os momentos em que pensei em desistir dela. Um deles aconteceu em 2016, época em que acreditava que minha criatividade havia acabado. Foi quando decidi, meio que por impulso, a fazer da escrita a primeira atividade do meu dia.

Me permiti ser livre para escrever o que viesse, da forma que viesse, sem cobranças nem objetivos. Dei a esse exercício particular o nome de exercícios de imaginação.

O que eu descobri com esse experimento diário foi que tudo que eu precisava para escrever era continuar escrevendo, independente das circunstâncias. Ao invés de contar apenas com a inspiração, passei a conhecer e dominar o meu processo criativo para me colocar, sempre que fosse necessário, em estado de escrita

Ao longo dos anos, entre exercícios diários de escrita e leitura de manuais sobre o tema, descobri que meus instintos haviam me guiado a uma prática comum entre os escritores, em especial aqueles que almejam aprimorar suas técnicas de forma contínua.

Assim, a escrita livre deve ser utilizada como um exercício de aprimoramento contínuo da escrita, mas não deve ser a única prática realizada por um escritor para o seu desenvolvimento técnico — até porque escrever pressupõe comunicar e comunicar pressupõe partilha.

Quando mostrar o resultado da escrita livre?

Ao longo dos anos exercitando a minha escrita, concluí que a maioria do que escrevo não precisa ser mostrado. Quando se trata de escrita, é mais importante tirar as ideias de dentro da cabeça do que torná-las públicas em sites, livros e redes sociais.

Como escritores, precisamos nos educar a pensar que a escrita é um treino — um treino contínuo — e que nem tudo o que escrevemos precisa ser uma obra de arte. Pelo contrário, quanto mais escrevermos, de bom e de ruim, mais fácil será se colocar em estado de escrita e melhores serão os nossos textos, independente da complexidade.

Assim como um artista plástico não mostra todos os seus rascunhos nem um músico registra todos os seus ensaios, nós escritores também não precisamos nos cobrar ao máximo em cada texto que escrevemos. Às vezes teremos resultados satisfatórios, mas às vezes não — e está tudo bem.

No entanto, também é importante mostrar os nossos textos para alguém — para um leitor beta ou em um grupo de escritores — para que possamos nos acostumar a ouvir as sugestões de outras pessoas, com outras vivências. Olhares diversos sobre um mesmo texto costumam enriquecer a experiência, tanto de escrita quanto de leitura.

Pensando nisso, a melhor pedida é você abrir seus textos aos poucos. Se você se sentir confortável e quiser mostrar alguns dos resultados da escrita livre, escolha leitores de confiança ou ainda encontre a sua turma — um grupo de escritores com quem você possa partilhar o que produziu para ver suas reações das pessoas e também ouvir sugestões.

Peter Elbow também criou técnicas de feedback entre escritores e leitores, apresentadas por ele no livro Writing with Power. Ele as dividiu em baseadas em critérios (criterion-based) e baseadas nos leitores (reader-based).

As sugestões baseadas em critérios analisam a escrita em conteúdo, uso da linguagem, organização e efetividade geral — em outras palavras, é a análise que a maioria de nós, como escritores, realiza diante de um texto.

Para o autor, esse tipo de análise é essencial para que o escritor reflita sobre o que produziu e possa aprimorar a sua escrita. Ele elaborou algumas questões basilares que podem guiar esse tipo de análise. São elas:

  • Qual é a qualidade do conteúdo escrito: as ideias, as percepções, o ponto de vista?
  • Como a escrita está organizada?
  • Quão efetiva é a linguagem?
  • Existem erros ou escolhas inapropriadas de uso?

Já as sugestões baseadas nos leitores levam em conta os efeitos que o texto provoca no receptor, independente da assertividade dos critérios. Peter Elbow chama esse tipo de sugestão de “o filme que passa na mente do leitor” e também elaborou perguntas para guiar esse tipo de análise:

  • O que aconteceu com você, momento a momento, enquanto você lia esse texto?
  • Resuma a escrita: dê o seu entendimento do que diz ou do que está acontecendo.
  • Crie algumas imagens para a escrita e as impressões que elas criaram em você.

Escreva livre, livre para escrever

Para alguns, talvez a afirmação de que para aprimorar a escrita é preciso escrever possa soar meio simplória — mas não se engane. Escrever, como venho afirmando há algum tempo, é um processo contínuo de aprimoramento técnico e psicológico, de estudo constante e leituras diversas de mundo.

Como uma boa obcecada, para mim escrever é viver em função da escrita, e seguir pensando nela inclusive quando não estou escrevendo.

A gente precisa evitar a armadilha de achar que escrever é difícil, que demanda estados mentais específicos ou ainda determinadas condições materiais e físicas. Escrever depende única e exclusivamente de sentar e começar a escrever.

No entanto, também não podemos nos iludir pensando que sempre será possível ficar horas sentado escrevendo — e é nessas épocas de nossas vidas que não podemos abandonar, de maneira alguma, o exercício da escrita.

Mesmo sem disponibilidade para escrever duas ou mais horas por dia, separe quinze minutos e escreva qualquer coisa que vier. Faça isso todos os dias. Faça sempre que achar necessário. Escolha alguns desses textos e mostre-os para a sua turma. Repita isso milhares de vezes, erre de novo e de novo — só, por favor, não se afaste da escrita.

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Quem escreve sobre escrita

Mylle Pampuch

Mylle Pampuch escreve e edita livros. Publicou as histórias em quadrinhos A Samurai e Doce Jazz e os livros de contos A Sala de Banho e Realidades pré-distópicas (& modos de usar). Ministra oficinas de escrita criativa, orienta autores em seus projetos literários e incentiva todos que queiram a escrever e publicar suas próprias histórias.

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