Escrita mindfulness: entenda o que é e como utilizá-la para melhorar seus textos

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Dom, inspiração, talento, musa, vontade, sonho… Cada um escolhe como explicar porque escreve. No entanto, há uma outra dimensão a qual a escrita nos lança — uma dimensão que, aliás, quanto mais escrevemos, mais clara fica: a dimensão do estar presente ao momento.

Quando temos alguma ideia que chega até nós de formas “misteriosas”, às vezes nos referimos a essa experiência como “estar fora do corpo” — mas, o que acontece é o contrário: estamos mesmo é bem dentro dos nossos corpos, sintonizados ao que ocorre dentro e fora de nós.

Para te ajudar a desvendar esses processos, hoje nós vamos falar sobre escrita mindfulness — ou, como gosto de chamar, escrita atenta.

O que é mindfulness?

Mindfulness nada mais é do que atenção plena. Porém, ao contrário do que muitos acreditam, ter atenção plena ou meditar não significa deixar a mente vazia, sem pensamentos — ao invés de controlar os pensamentos ou evitá-los, mindfulness é a prática de reconhecê-los assim que acontecem e, se possível, categorizá-los.

Por exemplo: você acabou de se sentar para escrever e se lembrou de responder alguém no Whatsapp. Digamos que seja algo sem muita importância, mas, mesmo assim, você não consegue parar de pensar nisso. Ao invés de tentar controlar o seu pensamento para se focar na escrita, você deixa o pensamento fluir e dá algum nome para ele — como “tarefas para depois” — e retoma a escrita.

Outro ponto importante sobre a prática da atenção plena é que ela está intimamente ligada ao momento presente. Quando não nos apegamos ao passado nem nos projetamos no futuro, vivemos o agora e o agora somente.

A prática da atenção plena, aliás, não precisa estar associada a nenhuma religião. Existem muitos estudos, inclusive, que comprovam que a meditação ajuda a combater a degeneração cognitiva — e você pode ler sobre alguns deles clicando aqui.

Mas, é claro, benefícios comprovados cientificamente são só argumentos distantes — por isso vamos ao que nos interessa, na prática, sobre a escrita mindfulness.

O que é a escrita mindfulness?

A escrita mindfulness, ou a escrita atenta é um estar presente durante todo o processo de escrita. Já falei sobre ela, de forma indireta, neste ensaio, no qual dou algumas pistas sobre como estar mais presente ao momento.

A questão chave da escrita atenta é que ela acontece tanto durante o ato de escrita quanto na busca e nutrição das ideias. Portanto, a escrita mindfulness, para alguns, pode significar um modo de vida em atenção plena.

O melhor exemplo disso é a sensação que nós temos de “trombar”, em diferentes contextos e ocasiões, com referências aos assuntos sobre os quais estamos pesquisando. Isso acontece não porque o universo está conspirando a nosso favor, mas sim porque estamos tão focados na nossa pesquisa que o nosso radar interno busca e identifica relações, gerando aparentes coincidências.

Isso se comprova quando realizamos o exercício oposto, o de nos perguntarmos como não fomos capazes de identificar antes certas referências que estavam diante dos nossos olhos. Resposta mais simples não há: é porque não estávamos focados ou, se preferir, atentos a sua existência.

Escrever é um jogo — um jogo com suas técnicas, que acontece dentro de uma linguagem, mas ainda sim um jogo no qual conduzimos nossos leitores através da comunicação. Escrita, além de intenção, carrega também marcas dos estados de espírito que encaramos enquanto estamos escrevendo.

Portanto, além de estar atento no de fora pra dentro, é preciso estar atento no de dentro pra fora — este, talvez, seja o maior responsável pelo sucesso e pelo fracasso de cada um de nossos projetos.

Como praticar a escrita mindfulness?

1. Nomeie seus receios

Escrever nem sempre é fácil. Colocar no papel ideias, emoções e projetos significa lidar o tempo inteiro com nossas expectativas em relação ao que estamos produzindo.

“Será que isso que acabei de escrever ficou bom?”, “será que é sobre isso mesmo que quero escrever?”, ou ainda “será que alguém vai ler e gostar o que escrevi?” são perguntas que nos assaltam enquanto estamos escrevendo.

No entanto, as histórias e ideias não saem sozinhas das nossas cabeças — é preciso escrevê-las, apesar dos receios.

Então, quando algum pensamento te travar, ao invés de tentar controlá-lo e se forçar a continuar, dê um nome a ele ou se diga algo como “posso rever isso na reescrita” ou “primeiro preciso escrever”.

2. Escrita de agora como treino

Cada vez que nos sentamos para escrever algo novo estamos treinando — ou, ao menos, essa deveria ser a forma como encaramos o ofício da escrita.

Por mais que estejamos escrevendo um texto com propósitos bem claros (por exemplo, para ser publicado em seguida), o ato da escrita é um eterno treino ao qual nos submetemos — e cujo resultado podemos lapidar depois

É natural que nem sempre publiquemos tudo o que escrevemos — assim como é natural que nem sempre editemos um texto recém-escrito. Mas, veja, esses são questionamentos sobre o futuro do seu texto, não sobre o agora da escrita.

Portanto, se você começar a escrever pensando que se trata apenas de um rascunho, afastará o fantasma da perfeição e abrirá caminho para desenvolver suas ideias — mesmo que, no final do dia, você escolha mudar muito pouco ou nada da sua primeira versão.

3. Escreva com intuição, edite com a razão

O sucesso da escrita (sucesso no sentido de desenvolver uma história, um texto ou um projeto do início ao fim) depende de equilíbrio. Nós podemos ler muito, estudar, aprender técnicas de escrita e até mesmo nos sentarmos para escrever com o intuito de utilizar alguma das técnicas que aprendemos — mas sempre, sempre mesmo, haverá uma esfera de intuição na nossa escrita.

O que quero dizer é que você não precisa se preocupar em encontrar motivos para explicar cada palavra e cada recurso que utilizar enquanto você estiver no processo de criação.

Mais uma vez, foque-se no agora, no seu agora da escrita, e permita que as ideias fluam até a ponta dos seus dedos como elas vierem — porque, a bem da verdade, algumas sessões de escrita resultarão em textos prontos e outras não, mas você só vai descobrir isso quando se permitir escrever sem receios.

Depois de terminar a sessão, coloque seu texto para dormir e vá fazer qualquer outra atividade — de preferência, algo que movimente o seu corpo. Retorne ao texto horas, semanas ou até mesmo anos depois para, só então, editar o que você escreveu.

Note que a chave aqui é a mudança de estado. Quando nos sentamos para escrever, estamos no estado criativo; já quando nos sentamos para editar, estamos no estado crítico. Os dois estados são complementares, mas eles coexistem melhor quando acontecem em momentos distintos.

4. Deixando para amanhã quando o amanhã nunca chega

Há, é claro, uma questão anterior a escrever: quando nossos questionamentos nos impedem de começar a escrever.

“E se eu tivesse mais tempo”, “e se eu tivesse mais condições”, “e se eu fosse melhor”, “e se eu tivesse estudado/lido mais” e tantas outras conjecturas só nos impedem de entrar no processo criativo.

“E se…” só serve como ferramenta de criação de hipóteses durante a construção de narrativas — e não como uma forma de autossabotagem.

Ao invés de encarar essas limitações como barreiras para que a escrita aconteça, precisamos abraçá-las como questões do agora. Sim, cada um de nós tem diversas barreiras, mas todas são temporárias e, principalmente, contornáveis.

Quando pensamos na construção de narrativas, escrevemos jornadas nas quais o nosso personagem principal enfrenta um conflito e, no final da história, depois de passar por várias experiências, tem uma nova postura em relação ao conflito.

Em outras palavras, o personagem vê seu conflito de uma nova forma.

Que tal copiar a arte e começar a ver os seus conflitos de novas formas?

Esteja presente e pratique a escrita atenta

Estar presente, tarefa difícil. Nos dias de hoje, quando há tanto de tudo, mais ainda. No entanto, se você leu esse artigo até aqui, estou certa de que a escrita te chamou com força — então por que não se dedicar a ela em profundidade enquanto estiver criando?

Nada de misticismo aqui, te garanto. É puro fazer, fazer e repetir, repetir e fazer. É treino e, como todo bom treino, envolve muita tentativa e erro — mas repetir esses ciclos com desatenção pode ser mais frustrante do que percebendo, dia após dia, os processos internos pelos quais você, escritor, passa.

Para finalizar, quero propor um exercício de escrita atenta:

  • Pegue um caderno, um lápis ou uma caneta (escrever no papel é importante); 
  • Escolha um local onde você se sinta confortável para escrever;
  • Concentre-se na frase “eu estou escrevendo agora”;
  • Escreva o que vier, como vier e o quanto vier;
  • Preste atenção, sem julgamentos, a como o seu corpo reage durante a sessão de escrita.

Repita esse exercício sem moderação e boa escrita!

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Quem escreve sobre escrita

Mylle Pampuch

Mylle Pampuch escreve e edita livros. Publicou as histórias em quadrinhos A Samurai e Doce Jazz e os livros de contos A Sala de Banho e Realidades pré-distópicas (& modos de usar). Ministra oficinas de escrita criativa, orienta autores em seus projetos literários e incentiva todos que queiram a escrever e publicar suas próprias histórias.

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