Escrevendo sobre os tempos atuais: por uma ficção mais política e menos panfletária

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“O assunto dos seus textos vai ser determinado pelo tempo em que ele [o escritor] vive – pelo menos isto é verdade em tempos tumultuosos e revolucionários como são aqueles atuais”.

– George Orwell, Why I Write

Sentar, imaginar uma história, escrever, publicar, ser lido. Questões que se interdependem no processo criativo. Dentro todas as questões, sem dúvida a que mais intriga o escritor é sobre o que escrever. O desejo puro e simples de criar uma história não resolve o problema do assunto. E é o assunto que traz ou afasta os leitores.

Muito se fala sobre a forma, a estética e a estrutura da narrativa. É comum nos depararmos com ótimas ideias em livros mal executados, que largamos já nas primeiras páginas. Tal qual os seres humanos, o texto é composto pelo seu corpo – a estrutura – e pela sua mente – o assunto. Do que é tangível, podemos falar, avaliar e melhorar; mas nada se pode fazer quando a ideia não funciona.

Por isso, antes de se colocar diante da folha ou da tela em branco, é preciso saber sobre o que escrever. Pesquisas, reflexões e experiências pessoais são algumas formas de encontrar um tema, sendo que uma não exclui a outra. No entanto, creio que o fator mais valioso na busca da própria voz seja conhecer o meio e o tempo em que se vive.

Ficção política

Ficção e política parecem duas palavras contrárias quando colocadas uma ao lado da outra. Se na ficção temos um porto seguro, o lugar que nos transporta para outros mundos longe do aqui e agora; na política temos o peso do momento, o sinônimo de opressão, corrupção e favorecimentos ilícitos. A fuga, muitas vezes consciente, para dentro de um livro, série ou filme, em nada combina com o que quer que os políticos estejam decidindo por nós.

Eis o engano.

Se são as experiências do escritor que o definem, seu senso de observação o orienta e sua capacidade de comunicação o move, por que fugir do viés político? Uso aqui política em seu sentido amplo, tal como fez George Orwell em seu ensaio Why I Write, escrito em 1946.

No ensaio, ele aponta as quatro motivações – excluindo o mero ganha-pão – que levam todo escritor a escrever:

  1. Puro egoísmo;
  2. Entusiasmo estético;
  3. Impulso histórico;
  4. Propósito político.

Ao pensarmos no autor de romances como 1984 e A Revolução dos Bichos, somos levados a concluir que o propósito político sempre foi o seu foco. No entanto, por ser contemporâneo das duas Grandes Guerras Mundiais e percebendo que regimes autoritários se espalhavam pelo mundo, ele optou por ser um escritor político, mesmo que os demais motivos o tenham chamado muito mais.

“Em tempos pacíficos, poderei ter escrito livros ornados e meramente descritivos, e poderei ter permanecido quase não consciente das minhas lealdades políticas. No entanto, o caso é que tenho sido forçado a tornar-me uma espécie de panfletário.”

Narrativas panfletárias

Ser um escritor panfletário significa defender um ponto de vista – no caso, político – à exaustão dentro de uma narrativa. Assim, ao invés de dar ferramentas para que o leitor refleta sobre o assunto, o autor opta por fazê-lo engolir sua opinião como se fosse a verdade absoluta do mundo. Não seja esse cara.

Existem diversas maneiras de transmitir o seu ponto de vista sem ser panfletário. Uma das escritoras mais talentosas em fazer isso é Margaret Atwood. Para compor obras como O Conto de Aia e Vulgo Grace, ela reuniu recortes de jornal e se baseou em notícias reais para criar seus mundos ficcionais. A crítica ao patriarcado, uma de suas marcas registradas, não se limita a representar as mulheres como anjos caídos do céu que sofrem horrores. A autora faz questão de mostrar pontos de vista de diferentes personagens, usando a polifonia e o subtexto para transmitir a sua mensagem.

Em um ensaio para o Jornal Rascunho, a jornalista Lívia Inácio traça um perfil sobre a volta de Margaret Atwood aos holofotes e reflete que “a aversão ao engajamento é uma ilusão barata, um clichê que já deveria estar superado. O escritor não é um sujeito místico, mas social. Por que não fazer bom uso disso?”

Ficção e política no Brasil

Mesmo jovem, nossa literatura está repleta de cânones que tiveram engajamento político. O romancista Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma) e o poeta Castro Alves (Navio Negreiro e Vozes d’África) são grandes exemplos explorados por Alfredo Bosi em seu livro Dialética da Colonização. Nele, o autor relaciona a história do Brasil com a produção literária de cada época, provando com argumentos e fatos que a literatura é um espelho político de sua época.

Nascer escritora ou escritor no Brasil não é muito fácil. Nossa literatura começa com o Romantismo e, por mais que nos esforcemos, parece impossível superar o realismo machadiano. Faltam bases, exemplos e incentivos. A tendência é se imaginar mais como um ser místico do que como um ser político. E a lógica não é de todo errada: se escrever dá trabalho e poucos me lerão, que seja algo que agrade a esses poucos.

No entanto, se um dos legados da nossa literatura é o viés político, por que muitas vezes nos amarga a boca pensar em falar sobre política em nossas histórias? O escritor Daniel Galera, em Obsolescência, sua primeira newsletter, nos dá uma luz: “De como as redes sociais em específico e a internet como um todo afetaram o exercício da nossa atenção, dos impactos da globalização e da tecnologia em nossa vida material e em nossa sensibilidade.”

O volume de informação nos afeta, em especial as notícias sobre política. Em nosso porto seguro, não queremos falar sobre ela, queremos fugir para outros mundos, criar espaços menos prejudiciais. O ar da realidade está pesado, então por que seguir repetindo discursos cansativos em textos que deveriam ser leves, divertidos?

Porque não é de peso que estamos falando. É de intenção.

O que queremos escrever versus o que podemos escrever

Você não precisa escrever um romance de mil páginas falando como é a vida sofrida de uma minoria para ser político. O grande encanto da literatura é poder fazer muito com pouco. Crie personagens negros, LGBT e protagonistas femininas fortes e mostre como eles vivem, quais desafios enfrentam e como conseguem superar os seus problemas. Isso se chama representatividade. Em outras palavras, use a sutileza e deixe que o seu leitor complete a mensagem.

Como escritores, temos a capacidade de dar leveza a assuntos pesados, tal qual fez George Lucas com suas metáforas ao totalitarismo na franquia Star Wars. Iniciada na década de 70, em meio à Guerra Fria e desenvolvida até os dias atuais, ela não se isenta em nenhum momento do viés político que em nada atrapalha o “mero entretenimento”.

Escrever com um direcionamento político nada tem a ver com inteligência. A escrita é um ato de alteridade, no qual o eu reconhece a si e enxerga o outro no mundo. Como diz Haruki Murakami em seu livro Romancista como Vocação “escrever dá trabalho e é tedioso” – então que, ao menos, seja por uma boa causa.

Sobre o autor

Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).

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Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).