3 passos (e um exercício) para você começar a pensar como um escritor

Amar a escrita e ouvir o seu chamado não fazem ninguém a pensar como um escritor. Imaginar histórias, ter prazer na elaboração de frases, ser elogiado e estar satisfeito com o resultado obtido são como faíscas que mantêm a chama da criação acessa por um curto período de tempo.

Manter uma produção focada e constante sempre foi difícil, independente da época. No entanto, o que nós vivemos hoje é uma gama infinita de opções, todas atrativas e urgentes. Assim, quando o resultado esperado não é atingido, é muito fácil abandonar um projeto para ingressar em outro, quase sem ônus para o seu realizador.

Falo, sem titubear, por experiência própria. Já dei muito murro em faca buscando o meu caminho com a escrita, mesmo tendo a plena certeza, desde muito jovem, que eu queria contar histórias. Mas o puro e simples “contar histórias” é tão vago quanto estar perdido em um labirinto: eu sabia o que queria fazer, só que não sabia como.

Mesmo sem ter as respostas para todas as perguntas (e quem as têm?), hoje estou certa de que se manter focado e motivado a escrever é uma das tarefas mais difíceis que existe. Ao contrário de um exercício físico, em que a recompensa é a perda de peso ou um bem-estar geral; ou um empreendimento que, depois da dedicação começa a gerar lucros imediatos, os resultados da escrita muitas vezes são imensuráveis.

Em geral, ninguém vai te cobrar se você não escrever ou te pagar por você ter se dedicado e chegado ao fim do seu livro. É preciso ser um pouco tolo para se tornar escritor, como diz Haruki Murakami em seu livro Romancista por Profissão.

Preparei três passo e um exercício para você que, assim como eu, escutou o chamado das letras mas sente dificuldade em se manter motivado a escrever ficção. Como toda boa lista, você pode ou não segui-la e adequá-la ao seu processo criativo – o importante é encontrar o que funciona melhor para você.

Para pensar com um escritor

1. Tenha um objetivo com a escrita

Escrever já é um mistério em si, então você não precisa inventar outro. Começar uma narrativa sem saber aonde quer chegar é como dar um tiro no escuro. É preciso planejar, mesmo que o mínimo, suas ideias. E maior a história, maior o período de planejamento.

Por isso, antes de começar, se pergunte sobre o que você quer escrever. Se estiver sem ideias, olhe ao seu redor. O que está acontecendo que chama a sua atenção? Quais situações dariam uma boa história? Tem algo que você acredita que é um dos únicos a perceber e tem capacidade de fazer com que outras pessoas percebam?

No início, é bem difícil encontrar um objetivo. Como eu sempre digo, a descoberta do processo criativo é um jogo de tentativa e erro que envolve autoconhecimento. Você pode ler todos os guias de escrita existentes e não encontrar um método sequer que te ajude a evoluir. Isso acontece porque você não sabe aonde quer chegar.

Lembre-se, no entanto, que objetivos não precisam ser escritos em pedra. Eles podem e devem ser mutáveis, variando de projeto para projeto. Hoje o seu objetivo pode ser escrever um conto para um concurso literário; amanhã pode ser uma letra de música; depois um roteiro para história em quadrinhos. Invista em cada uma das suas ideias. Ter um objetivo claro antes de se sentar para escrever facilitará o seu trabalho.

2. Crie uma rotina de escrita

É aqui que você começa a colocar a mão na massa. Apenas ter um objetivo não faz com que a sua história seja escrita. No entanto, muitas vezes também não basta separar um dia inteiro para escrever a cada duas semanas. O ideal é que você tenha um ritual, uma rotina.

Por rotina, entenda que você está se dando uma oportunidade para escrever em um mesmo horário, durante um mesmo período de tempo. Deixe a conotação negativa da palavra de lado. A partir de hoje você está criando um novo hábito que te ajudará a ser um escritor melhor.

Em 2016, decidi escrever diariamente. Meu objetivo era apenas melhorar a técnica. Eu, que sempre louvei a inspiração e odiei a rotina, sofri nos primeiros meses. Começava e largava o hábito me dando desculpas como falta de tempo ou de ideias. Foi só no ano seguinte, depois de vários testes, que descobri que meu melhor momento de escrita era logo depois de acordar e me acostumei a escrever todos os dias.

Depois de descobrir como funciona o seu processo criativo, a tendência é que, com alguns meses de treinamento, você comece a pensar na escrita o tempo todo. Assim, ao invés de apenas imaginar o que você quer escrever, você passa a elaborar frases e argumentos dentro da sua cabeça, chegando até o papel com parágrafos quase prontos.

3. Entenda que escrever é um treino

O maior defeito de um escritor é acreditar que não é possível treinar a escrita. Colocada em um pedestal, ela fica relegada a acontecer apenas em circunstâncias ideias – ou, em outras palavras, apenas quando há tempo e inspiração em um ambiente favorável.

Quero que, a partir de hoje, você abandone essa imagem.

Volto a repetir que entre o desejo de escrever e o ato da escrita, há um abismo que, a princípio, parece instransponível. Sem foco e rotina é muito difícil desenvolver habilidade com as palavras.

Para provar que não estou exagerando, quero que pare de ler esse post agora e pesquise sobre os hábitos dos seus escritores favoritos. Basta uma googleada básica para você descobrir que alguns deles escreviam logo ao acordar, criavam metas de quantidade de palavras por dia, reservavam um tempo para desenvolver suas histórias, etc. É muito, muito raro mesmo, encontrar um grande escritor que não tenha criado uma rotina.

O que fica nas entrelinhas é que, ao ter uma produção constante, o escritor está exercitando a sua escrita. Não é à toa que muitos deles trabalham também como jornalistas, já que assim podem continuar afiando sua técnica com as palavras.

Mas o problema é que são raras as pessoas que clarificam esses detalhes para quem quer ser escritor. Sem a devida orientação, a imagem do ser escritor fica limitada ao sentar e escrever, como se o simples ato fizesse nascer o grande romance.

A partir de hoje, pense na escrita como um treino. E cada palavra que você colocar no papel ou na tela faz parte desse treino – desde uma mensagem de texto no Whatsapp até o trecho do seu próximo romance. Valorize as palavras, explore seus sentidos, não as utilize em vão. Lembre-se de que você está treinando o seu cérebro para pensar como um escritor.

Uma vez que tudo o que você escreve é treino, é hora de se habituar a não se apegar tanto ao que você produz. Esqueça a ideia de que o texto terminado é a entidade mais preciosa que existe, porque não é. Primeiro, você o escreve para ter uma noção da ideia e, em seguida, você começa a reescrita.

Mas como treinar?

Você já tentou meditar? Tentou parar de comer doces? Tentou começar a se exercitar? Tentou parar de roer unhas? Pensar como um escritor segue a mesma lógica da criação de todos esses hábitos. Em outras palavras, você não vai conseguir chegar lá do dia para a noite.

Certa vez, comecei a usar o app Fabulous. Seu objetivo é ajudar os usuários a criar novos hábitos que tornarão suas vidas mais fabulosas – em outras palavras, ser mais saudável e ter mais energia para encarar os desafios do dia a dia.

Eis que encontrei essa ponte entre os hábitos que desenvolvi como escritora e os hábitos que eram propostos pelo aplicativo. Em um esquema de rituais, tudo começa com tomar água logo depois de acordar. Só isso. Em três dias de sucesso, o app propõe uma melhora no café da manhã, depois exercícios e celebrações após cada dia de ritual completado.

Pois bem, eu já estava fazendo o meu ritual de escrita por instinto há mais de um ano. No fundo, tudo, tudo mesmo, começa com a decisão do querer fazer. Dinheiro, tempo livre e questões de saúde podem adiar a ação, mas, quem decide ser escritor, começa a se desenvolver assim que tem oportunidade.

Se você está decidido a se tornar escritor, eu te desafio a participar de um programa de 28 dias para criar o hábito da escrita e começar a pensar como um escritor. São sugestões simples, pequenas adaptações que fortalecerão o seu processo criativo.

Desafio: 28 dias para pensar como um escritor

Três motivos para você participar do desafio

  1. Para ter um objetivo, uma motivação para escrever – no caso do exercício, para treinar.
  2. Para criar uma rotina de escrita e habituar o seu cérebro a pensar como um escritor;
  3. Para aprender a reescrever seus textos, assumindo que todos são parte do grande exercício de ser escritor e sempre podem ser melhorados.

Do que você precisa para participar do desafio

  1. Tenha um caderno de escrita, assim você verá o seu desenvolvimento se materializando ao longo dos dias.
  2. Decida em qual horário você irá escrever e se comprometa com isso. Quanto mais cedo você escrever, melhor. Assim, você evita a frustração de acabar o dia sem ter colocado nenhuma palavra no papel;
  3. Escreva sobre o que for mais confortável para você. Se você está em um momento complicado, use a escrita como terapia. Se tem uma ideia de história, comece a coloca-la no papel, mesmo que sejam apenas alguns lampejos. Se preferir, escreva narrativas curtas. No treino, o conteúdo é menos importante que o desenvolvimento do hábito.

Como participar do desafio

  1. Na primeira semana, seu objetivo é escrever apenas um parágrafo. Caso tenha mais ideias, continue escrevendo, mas não escreva menos que um parágrafo.
  2. Na segunda semana, seu objetivo é escrever dois parágrafos. Ultrapasse o objetivo caso sinta vontade.
  3. Na terceira semana, você continuará com os dois parágrafos e voltará aos escritos da primeira semana para reescrevê-los. Assim, além de novos textos, você relerá os antigos, anotará as mudanças e os digitará.
  4. Na quarta semana, seu objetivo é preencher uma página. Se seu caderno é pequeno e dois parágrafos já preenchem uma página, então seu objetivo é preencher outra. Continue com a reescrita dos textos antigos.

Em um mês escrevendo todos os dias, você já terá se conhecido melhor e saberá em qual momento da escrita está. A partir daqui, você tem algumas opções:

As possibilidades são infinitas. Se você se sente apto a escrever, mas sempre vai deixando para depois, tenho certeza de que o treino constante da escrita lhe ajudará muito a pensar como um escritor.

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2 comentários

  • Muito bom! O hábito é o que eu realmente preciso desenvolver. Eu era um daqueles que achava que a escrita era um momento mágico, onde se escreve quando a inspiração vem e depois nada pode ser retocado. Muito obrigado pelos excelentes posts!!

Quem escreve sobre escrita

Mylle Silva

É escritora, roteirista de histórias em quadrinhos e instrutora de escrita criativa. Formada em Comunicação Social, ministra oficinas e ajuda pessoas a transformar ideias em histórias e sonhos em projetos.

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