Porque e como você deveria começar agora um planejamento de escrita

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Para escrever, não basta se inspirar, é preciso planejar. Um bom planejamento de escrita é o primeiro passo para você produzir tudo o que sempre sonhou – desde uma postagem nas suas redes sociais até um livro de cem mil palavras.

Apenas se sentar e esperar que a inspiração venha nem sempre é uma opção. Para quase todos, o chamado da escrita se dá através desses lampejos. No entanto, ao escolher a escrita como ferramenta de trabalho, é preciso ultrapassar quaisquer condições auto impostas e produzir.

Em um passado não muito distante, me recusei a planejar qualquer texto que fosse escrever com o receio de que pensar de antemão pudesse destruir a fruição da escrita. Para mim, escrever deveria se manter no âmbito da surpresa – como se ao quebrar essa regra, minha criatividade fosse destruída.

O fato é que, sem um objetivo claro (mesmo que esse objetivo seja dizer nada com nada), não há trabalho de escritor que perdure. Passar a vida escrevendo parágrafos soltos e ideias esparsas resultará em uma obra inconsistente.

Praticar a escrita todos os dias deve sim ser uma prioridade, mas é preciso, em conjunto, estar disposto a construir um trabalho que possa ser editado e transformado, posteriormente, em uma publicação.

A grande questão é como se planejar. Existe alguma forma melhor ou pior de realizar um planejamento de escrita? Já adianto que não. Como cada escritor tem o seu processo criativo, a maneira como cada qual planeja sua produção também é diferente.

Nesse artigo, meu objetivo é demonstrar um pouco do que funcionou comigo e sugerir alternativas de planejamentos que te ajudarão a dar um gás na sua produção.

Escrevendo como exercício

Antes de mais nada, é preciso levar a sua escrita um pouco menos a sério. Nem tudo que você escreve precisa ser genial e perfeito. Lembre-se que escrever é uma construção, um aprendizado constante, uma habilidade que precisa ser desenvolvida e treinada dia após dia.

É para isso que existem os exercícios de escrita criativa. Através deles você pode buscar novas ideias e escrever sobre qualquer outro assunto com mais liberdade do que se fosse para o seu próximo conto ou romance.

Outra vantagem dos exercícios é que, na maioria das vezes, eles trazem propostas com objetivos claros. Seja um tema, um tempo limite ou um número mínimo de palavras; aceita-se o exercício sabendo que há uma meta a ser atingida.

Assim, além do hábito da escrita, recebemos também um outro presente: o hábito de escrever sempre com um objetivo claro.

Escrevendo com objetivo

Se você tem um objetivo claro ao escrever, apenas estar inspirado não bastará. A inspiração é ótima, move cada uma de nossas vontades, mas sua inconstância torna-se um problema – principalmente nos dias em que a cabeça está cheia de boletos e dilemas da vida moderna.

Manter-se inspirado o tempo inteiro é possível, mas o que é essa inspiração plena além de uma meta pré-estabelecida? Traçar um objetivo para escrever nada mais é do que colocar-se disponível e disposto a produzir não importa o que aconteça.

Não importa o que aconteça, todos os dias vou sentar e escrever.

Simples assim. Difícil assim.

Boas leituras, músicas, conversas, experiências, caminhadas… Nada disso é a causa da sua escrita. A única causa da sua escrita é você, o resto é acessório. Quem determina o seu objetivo para escrever é você e não quantos leitores possui nem quantas curtidas recebe.

A única pessoa com quem você precisa se comprometer para escrever é com você.

Você está pronto para se comprometer?

Se sua resposta for positiva, é hora de ter um objetivo claro de escrita – o que muitos autores chamam de projeto. O seu projeto não precisa ser revolucionário, nem o melhor, nem o mais elaborado de todos; ele só precisa ser para que você possa trabalhar nele.

A partir do momento que você decidir o que quer fazer, o próximo passo é organizar as ideias.

Organizando as ideias

Ou, em outras palavras, pensando sobre o que escrever. É chegada a hora do brainstorming, de jogar tudo o que você pensa em um papel antes de decidir o que fazer.

Nenhuma ideia é ruim sozinha; mas as ideias se tornam ruins quando mal trabalhadas. Com um bom planejamento de escrita, é possível não só saber de antemão se a ideia funciona da forma como foi pensada, mas também trabalhá-la de forma consciente, facilitando a escrita do texto.

Luis Antonio de Assis Brasil, professor de escrita criativa na PUCRS, em seu livro Escrever Ficção, conta que as ideias nascem de duas formas.

Já prontas dentro da cabeça do escritor, fenômeno que ele chama de Big Bang. É quando personagens, enredo e ambientação parecem ter nascido prontos para serem escritos, sem nenhuma reflexão prévia sobre o assunto.

A outra forma, que ele chama de Geleia Geral, nada mais é do que uma ideia construída aos poucos. É quando o autor formula em sua mente, ao longo do tempo, a ideia para sua próxima história. Um detalhe aqui, uma conversa ali, um personagem acolá; pedacinho por pedacinho, até que a ideia se solidifique e surja a necessidade de colocar tudo no papel.

No meu artigo sobre como planejar o roteiro para uma história em quadrinhos, mostro todas as etapas do desenvolvimento da ideia, desde seu nascimento até o argumento completo. Garanto que cada passo será útil na elaboração da sua história, mesmo que seu objetivo seja escrever uma narrativa em prosa.

Buscando um tema

Todo texto, seja ficcional ou não, possui um tema central. O tema é um elemento que vai além da ideia, mas faz parte dela, permeando todo o texto – tornando-o assim o pedaço de algo maior, como um site, um compilado, um livro ou toda a obra de um escritor.

O tema caracteriza a publicação de alguma forma. Por exemplo, se eu me proponho a começar um site chamado Oficina de Escrita, é porque quero abordar a escrita e outros temas relacionados, como literatura, livros e criatividade. Você não encontrará aqui um artigo sobre como dar banho no seu cãozinho, por mais que eu ame cachorros.

Portanto, a partir do momento que o autor escolhe um tema, ele tem um foco a seguir.

O mesmo acontece ao planejar um livro, principalmente se for um livro de contos ou textos esparsos. É ótimo publicar tudo que está guardado na gaveta – eu mesma fiz isso no meu primeiro livro – mas, a partir do momento que seu trabalho como escritor começa a amadurecer, a busca por um tema se torna natural.

Nas redes sociais, ter um tema também é bem-vindo. Com a briga por atenção cada vez mais acirrada, os algoritmos costumam entregar conteúdos não só de perfis com postagens regulares, mas que tenham consistência temática. Nessa disputa pela entrega, perfis pessoais, nos quais as postagens não seguem nenhum critério temático, costumam ter menos visualizações.

Por isso, num bom planejamento de escrita, definir o tema de trabalho é uma etapa essencial. Uma vez escolhido, o tema funcionará como um filtro que delimitará todas as suas ideias e tornará seu trabalho mais consistente.


Anotações e planejamentos de escrita

Agora que você sabe a importância de planejar e as bases que norteiam a prática – diferenciar exercício de escrita; guardar todas as ideias e buscar um tema –, é hora de conhecer algumas ferramentas que podem ser usadas no seu planejamento.

Ressalto, mais uma vez, que cada escritor possui um processo criativo e, portanto, possui também uma forma de realizar o seu planejamento de escrita. O importante é conhecer, testar, combinar e escolher o que funciona melhor para você.

Tópicos

Muito utilizado na fase das ideias, consiste em anotar tudo o que você pensa sem critério algum; basta indicar o começo com uma flechinha, um ponto ou um traço e escrever. Pode ser uma palavra, uma frase, um pedaço de narrativa, um sonho, um nome, uma descrição. Anote tudo, sem medo de ser feliz.

A vantagem dessa prática é tirar o “lixo” de dentro da mente e abrir espaço para ideias melhores. Como não há compromisso com a qualidade aqui, você pode adquirir o hábito de anotar tudo, desde a besteira mais simplória até o lampejo da sua obra prima.

Frases e parágrafos

Talvez você já esteja trabalhando no seu projeto, talvez não, mas aqui você já conhece ao menos o tema que abordará. Distraído, lavando louça ou andando na rua, uma frase ou parágrafo inteiro virá. Anote. Mesmo que não saiba ainda onde encaixar o que acabou de escrever, anote. Depois você resolve o que fazer com ele. 

Cartões de cenas

Essa técnica é para quem está escrevendo uma narrativa. Antes de sentar e escrever de fato, pense em todas as cenas da sua história e crie um cartão para cada uma delas. Anote onde se passa a cena, quem participa dela, quanto tempo ela dura (ou em quantas páginas) e uma breve descrição do que acontece nela. Depois de produzir todos os cartões, releia-os em ordem e veja o que funciona e o que pode ser descartado ou mudado de lugar.

Leitura da escrita anterior

Tirada do livro Write great fiction: Plot & Structure, do escritor James Scott Bell, essa técnica é perfeita para quem não quer planejar tudo, mas também não quer se perder. Ela consiste na leitura do que foi escrito na sessão anterior antes de voltar a escrever, para dar aquela relembrada. Assim, além de aquecer a caixola antes de seguir em frente com a escrita, o autor evita repetições e erros de continuidade.

Entrevista com o personagem

Toda boa história precisa de um bom personagem – e conhece-lo de antemão é essencial para a construção da narrativa. Por isso, antes de começar a contar a sua história, é importante que você escreva um descritivo do seu personagem com tudo o que você precisa saber sobre ele. Insira características físicas, psicológicas e também o seu backstory, ou pano de fundo.

Uma boa técnica para tanto é a entrevista com o personagem: uma série de perguntas as quais você o submete com o intuito de fazê-lo responder em primeira pessoa. No meu livro Guia Básico e Prático de Roteiro para sua próxima História em Quadrinhos, elaborei um questionário com 21 perguntas para você saber tudo sobre o seu personagem.

Conhecendo o final

Assim como ter um objetivo guia a sua caminhada como escritor, saber o final do que você está escrevendo é importante para entender o que precisa ser feito para chegar até lá. James Wood, em seu livro A coisa mais próxima da vida, diz que um dos fatores reconfortantes das histórias é que conhecemos o final – ao contrário das nossas próprias vidas, das quais só saberemos o fim vivendo.

Então, se não somos capazes de controlar o final das nossas vidas, que controlemos ao menos o final dos nossas narrativas.

Planejar é saber aonde você quer chegar

Um planejamento de escrita não nasce da noite para o dia. Como todo o trabalho do escritor, ele é uma construção que pode demorar anos para ser edificada e varia muito ao longo da caminhada e com o acúmulo de experiências.

Mesmo assim, deixar de planejar e viver apenas da fruição é estar consciente de que o resultado do trabalho será incerto. Se você quer apenas produzir, escrever algumas coisas sem se preocupar com o dia de amanhã, vá em frente.

No entanto, se você tem um objetivo, como ser um escritor profissional, escrever por escrever não é uma opção. Escrever como exercício, ter um objetivo, trabalhar as ideias, escolher um tema e usar técnicas de planejamento te farão investir o tempo do devaneio no que realmente importa: escrever bons textos.

Planejar é parte do trabalho com as palavras.

E sempre se manter em contato com seu lado criativo também. Nisso, eu posso ajudar. Assine a Lista Secreta de Escritores e receba, quinzenalmente, uma newsletter com artigos e dicas sobre livros, literatura e criatividade.


Sobre o autor

Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).

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Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).