O poder das palavras: ser escritor é transformar a vida em texto

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Palavras. Através delas construímos e explicamos, descobrimos, viajamos, terminamos. São elas as ferramentas de trabalho de todo ser humano que vive em sociedade e se comunica com os demais. Independentemente do idioma, as palavras estão lá, com sua efemeridade e sua transcendência.

O poder das palavras escritas definiu minha vida e, com certeza, me seguirá até o fim. Basta olhar ao meu redor para encontra-las, em inúmeros idiomas, como gotículas de informação no meu reduto controlado. Em cada livro, milhares delas alocadas em estantes, empilhadas em papéis outrora brancos, à espera de serem descobertas. A cada nova leitura, sou transformada através delas.

Já a palavra falada, imediata como um tapa, esvanece no ar, tal velocidade da onda que não se repete. No entanto, mesmo não registrada, pode ecoar na vida de quem a recebe, como uma cicatriz a ferro quente, uma marca de nascença, uma suspensão do ar.

Hoje, quero te convidar a refletir comigo sobre a palavra e a força da linguagem. Um breve passeio sobre como as palavras nos definem na visão de alguns filósofos e autores – uma busca singela para descobrir se somos feitos de palavras ou são elas é que são feitas de nós.      

A língua materna

Todos nós, desde o momento em que nascemos, temos contato prioritário com um determinado idioma e em menos de dois anos, somos os felizes falantes da nossa língua materna. Essa língua, além de ser uma forma mais eficaz de comunicação do que o choro, dita a maneira como pensamos.

O linguista Ferdinand de Saussure, em seu livro Curso de Linguística Geral, defende que somos completamente moldados pela nossa língua materna. Uma vez que cada idioma tem a e sua maneira particular de organizar as sentenças, e o pensamento é formado por palavras; logo a língua materna determinará a forma como pensamos.

Assim, um falante de português só pode pensar como um falante de português; bem como um falante de alemão só pode pensar como um falante de alemão. As diferenças entre as nações não são meramente de valores, mas também na maneira como cada falante de uma determinada língua formula seus pensamentos.

Há outro aspecto ditado pela língua materna: a fonação. Até os seis anos de idade, somos capazes de aprender qualquer idioma e fala-lo sem sotaque. Isso porque nosso sistema fonador ainda é uma musculatura em formação, capaz de se adaptar a emissão de qualquer língua. No entanto, a medida que vamos crescendo, os músculos se tornam mais rígidos e acostumam-se às posições dos idiomas que mais falando.

Por isso, quando tentamos aprender chinês, coreano, russo, alemão, polonês ou quaisquer outros idiomas que exijam um uso diferente do sistema fonador do que estamos acostumados em português (guturais, entonações, posições da língua, etc), temos mais dificuldade para emitir certas palavras.

Um animal que fala e escreve

O ser humano é o único animal que fala e escreve. Segundo o filósofo grego Aristóteles, a nossa forma de comunicação se desenvolveu porque somos seres políticos e vivemos em sociedade.

Para ele, a palavra não é apenas uma ferramenta, mas sim um traço, uma qualidade do homem – e é exatamente a palavra que nos distingue dos demais animais. É ela que permite toda a nossa vida comunitária (família, amigos, trabalho, etc).

Muito antes de Saussure, Aristóteles dizia que é a palavra que costura o texto e tece os pensamentos, tal qual um tecelão. Ao escrever ou falar, nós burlamos as leis da física e fixamos o tempo por alguns instantes.

Em suma, a palavra é a expressão do pensamento – ou, nos termos da filosofia aristotélica, do logos. O pensamento, ao contrário do que possa parecer, não é puramente a razão, mas o misto de percepções, sentimentos, ideias, sensações e experiências. Não há ação nas nossas vidas que não envolva palavras, já que a tudo elas nomeiam e atribuem algum significado.

Se as palavras são o meio de expressão do pensamento, nós as utilizamos porque desejamos comunicar algo a alguém. E é a vontade de dizer que materializa o pensamento, fazendo com que uma ligação sináptica cerebral se transforme em ondas sonoras, bytes, tinta no papel, etc.

Assim, as palavras são o pensamento encarnado.

Mas, é claro, nem tudo é tão simples assim. Há outro aspecto sobre as palavras: seus significados são mutáveis. E é exatamente aqui que reside o material de trabalho do escritor. A palavra lua, por exemplo, é apenas um signo – ou seja, a palavra não é a lua em si. No entanto, quando ouvimos a palavra lua, somos remetidos ao significado dela, que é o satélite natural da Terra.

A grande questão é que cada um de nós é capaz de atribuir um significado diferente para a palavra lua. E é por isso que, para ser escritor, é preciso ter consciência de que as palavras escolhidas são as que melhor expressam o que queremos dizer – o que não significa que tudo precisa ser dito de maneira clara e direta.

Mas calma, nós já chegamos lá.

Escrever é fixar o momento

Enquanto os pensamentos vão e vêm na velocidade que bem entendem, só resta uma opção para não os perder: registrá-los. E a forma mais antiga de registro é a escrita. O desejo do ser humano em registrar seus pensamentos vem desde os desenhos rupestres na pré-história e passou por cada uma das grandes civilizações da antiguidade.

Toda a caminhada filosófica feita por Luc de Ferry em seu livro Aprendendo a Viver tem como base a seguinte premissa: de que o ser humano é o único animal que sabe que irá morrer e, por isso, passa a vida tentando transcender à morte.

Deixando de lado as crenças religiosas e filosóficas sobre “o lado de lá”, pensemos em tudo o que produzimos em vida – em especial, os nossos registros escritos. De que interessa saber, hoje, se Aristóteles era gordo ou magro, alto ou baixo, bonito ou feio? O que ficou dele, a essência do seu pensamento é o que importa. Pensamentos que ele teve 300 anos antes de Cristo e nós repetimos até hoje.

Quando nos sentamos para escrever o que quer que seja, é preciso lembrar que a escrita é um registro concreto do pensamento. Não é só um amontoado de palavras soltas; elas são uma mensagem. Na pior das hipóteses, é a materialização de uma cadeia única dos seus pensamentos.

Falo não só de literatura, mas de tudo. E-mails, mensagens, redes sociais, blogs; em tudo estão seus pensamentos vertidos em palavras. Sua precipitação e seu carinho, suas lembranças, quem um dia você foi, com quem um dia você falou. Tudo a um passo de ser apagado, é verdade, mas enquanto existência é o registro de uma parte sua, e somente sua, que nunca mais voltará.

Pensando nisso, deixo a pergunta: quais momentos você quer fixar?


Palavras de escritor para escritor

Francine Prose dedica o primeiro capítulo do seu livro Para ler como um escritor às palavras. Para a autora, a leitura atenta ajuda o leitor a degustar as palavras e lutar contra a ansiedade. Afinal, se o escritor escolhe com tanto cuidado cada uma das palavras que usa, por que apressar a leitura?

Todos os elementos da boa escrita dependem da habilidade do escritor de escolher uma palavra em vez da outra. E o que prende e mantém nosso interesse tem tudo a ver com essas escolhas.

Portanto, o poder das palavras está muito além de comunicar algo, em especial na literatura. Não basta informar algo, como quem conta uma amenidade. O escritor escolhe as palavras que melhor expressam seus pensamentos que causarão novos pensamentos nos leitores.

A pressa também deve ficar de lado na hora de escrever. Ter um tempo limite para elaborar um texto é ótimo, mas o tempo não pode tolher a sua capacidade de selecionar as melhores palavras. Escrita e reescrita devem caminhar em conjunto como uma garantia de que a sua mensagem será transmitida da melhor maneira possível.

Sempre que precisar, pergunte-se: que tipo de informação cada escolha de palavra transmite?

As palavras são importantes e muitas vezes demandam energia para serem escolhidas e ordenadas. No entanto, é preciso ler e escrever pensando também no que está entre essas palavras, pensando no subtexto.

O dito pelo não dito: o subtexto

Se as palavras materializam pensamentos, o espaço entre elas também comunica. O subtexto é uma qualidade da linguagem, na qual o contexto atribui significado ao signo (palavra), mudando assim a sua conotação.

Existem subtextos mais diretos, como metáforas, figuras de linguagem e ditos populares; e outros que dependente estritamente do falante e do seu local para serem compreendidos.

Se as palavras são a parte mecânica e estrutura da narrativa, o subtexto é parte do significado e é onde reside toda a análise literária. Podemos atribuir ao subtexto desde a história pessoal do escritor e seu contexto histórico até as psiques do narrador ou dos personagens.

Dessa forma, a escolha das palavras ganha ainda mais importância. Uma vez que escrever e falar pode ser interpretado de variadas formas dependendo do contexto, comunicar não é um ato assertivo – pelo contrário, chega a ser desafiador.

São incontáveis os escritores que se dedicaram também ao estudo da filologia. Nosso exemplo mais icônico é Guimarães Rosa, cuja obra é considerada complexa exatamente pela forma como ele organiza as palavras.

Claro que, se essa não for a sua ambição, sua literatura não precisa ser rebuscada. As palavras são muitas e as formas de organizá-las também. No entanto, uma das premissas da literatura é fazer o leitor pensar por si mesmo – e é aí que o subtexto melhor trabalha.

Ao mesmo tempo que o escritor precisa saber o que quer dizer, ele deve construir a sua narrativa de uma forma que instigue o leitor a descobrir o que está sendo dito naquela história. Os acontecimentos são explícitos, mas o tema central fica implícito, apenas à espera de um bom leitor para desvendá-lo.

O poder das palavras

No final das contas, não importa o que se diz, mas sim como. O poder das palavras está em materializar o pensamento e fixar o tempo por um instante – e nem sempre de forma positiva. Quanto mais reflito sobre o que digo e sobre o que me dizem, tomo mais consciência de que as palavras me constroem.

De meras manchas cotidianas, as palavras atingem seu ápice na literatura – e é por isso que muitas pessoas não se afeiçoam a ela. A literatura exige que se pense nas palavras de outras formas, de que o leitor saia da zona de conforto da sua construção sináptica e a exercite em busca de uma nova forma de pensar.

Escrever exige um conhecimento ainda mais profundo do peso das palavras. O processo de escrita literária não é apenas um momento de sair da zona de conforto da linguagem, mas uma proposta de vida fora dela, como um eterno turista da língua materna em busca das melhores formas de transformar a vida em texto.


Sobre o autor

Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).

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Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).