Querida Literatura: uma carta-manifesto declarando meu amor à literatura

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Querida Literatura,

Quero escrever-te uma carta e até desconheço a razão pela qual tal desejo não me ocorrera antes, já que com você vivo uma das relações mais duradouras da minha vida. Em sua companhia aprendi quase tudo que sei. Aliás, companhia é um sinônimo seu.

Os primeiros anos

Confesso, um pouco envergonhada, que não sei ao certo como nossa amizade começou. Lembro-me bem, no entanto, da forte atração que senti, ainda em tenra idade, pelo objeto que te representa: o livro. Nos primeiros dez anos de vida, meu acesso a você foi limitado. Posso contar nos dedos os livros infantis que me acompanharam: três, que revirei com amor e curiosidade invioláveis. Além deles, tinha três ou quatro gibis e os livros didáticos da minha mãe. E foi de um desses livros que decorei o meu primeiro verso:

Saudade, palavra doce
Que traduz tanto amargor
Saudade é como se fosse
Espinho cheiram à flor.

P.S.: Em uma breve pesquisa, descobri que o tal verso que passeia há anos em minha mente é o início de uma música

Decorei também o nome do autor: Bastos Tigre. Talvez tenha sido este meu primeiro lampejo do que era ser escritor.

Recordo-me bem da coleção de coletâneas de poetas nacionais que a mãe de uma amiga minha tinha. Foi lá que encontrei pela primeira vez Castro Alves, Gregório de Matos, Olvao Bilac e tantos outros. E, mesmo sem ter decorado todo o poema, não me escapa da memória a cadência lírica de O Laço de Fita. Tão forte, amoroso, platônico – e definidor da minha adolescência.

A poesia, como pode perceber, foi meu primeiro encontro com você.

Aos oito anos, comecei a escrever meus próprios versos. Mais uma vez, eu não sabia ao certo o que estava fazendo; como tudo que se faz na infância, não se buscam explicações. Eram meus primeiros anos de alfabetização e, ao invés de formar frases com as palavras que a professora dava, eu escrevia poesia. Foi assim, literatura, que você me definiu. Desde então eu não sei ser outra coisa além de escritora. E é claro que passei a vida inteira lutando contra isso.

Eis o problema de saber quem se é tão cedo: desacreditar-se. É preciso ter uma autoafirmação enorme para olhar-se no espelho desde a infância sabendo quem você é. E se autoafirmação é algo que me falta na vida adulta, imagine só da infância para a adolescência. Por isso, talvez, criei o padrão de fugir de você sempre que me parecia inatingível. Mas, mesmo assim, você sempre foi a mais fiel das companheiras quando tudo mais ruía. Você é inabalável.

Entrando na biblioteca

(Sei que já conhece bem a história da primeira vez que entrei em uma biblioteca, mas vou contar-lhe novamente).

A primeira biblioteca na qual entrei foi a da minha última escola: Madalena Sofia. Não recordo o que me levou até lá – bem provável que tinha sido minha natural curiosidade – mas experimento agora, uma vez mais, a surpresa de ver com meus próprios olhos o que era uma biblioteca.

Causa-me certo incômodo essas lembranças pela metade – afinal, eu já sabia o que era uma biblioteca? Busquei por ela ou foi um lance do acaso? Se é do efeito, e não da causa, que estamos falando, faria sentido explicar tais coisas?

Estou, pela primeira vez, na porta da biblioteca. As dez ou mais estantes cheias de livros me causam um estranhamento inicial – desses que temos quando encontramos um grande amor. Entre atraída e respeitosa, aproximo-me dos livros, começo a olhá-los. Vivo esse afastamento das coisas, como se sempre de passagem. E com você, literatura, não foi diferente. Toquei-te como se ao sagrado da vida, suja, empoeirada, colorida, capas gastas, folhas amassadas. Levei-te para casa tantas e inúmeras vezes dali, preenchi carteirinhas – quando ainda existiam – li e não li na mesma proporção. Estávamos juntas.

Uma relação entre mulheres: eu, a literatura e a biblioteca. Entramos umas nas outras sem pudores, trocamos suores, nos modificamos.

Para ser literatura

Desde o instante que conheci seu lar, desejei fazer brotar um livro meu em uma daquelas estantes. Foi assim que passei a buscar com tal obsessão o que significava ser uma escritora. No entanto, sem um mentor de carne e osso que guiasse minhas leituras, agarrei-me a tudo que me ofereciam como caminho – e o que não me ofereciam, eu tateava no escuro para ver aonde iria dar.

Eis o labirinto no qual, de certa forma, vivo até hoje.

Queria te entender, literatura, mas não no sentido analítico. Queria ser tua no sentido literal; entregar meu corpo e minha alma a você, que as palavras preenchessem cada vazio e desilusão até que tudo mais desaparecesse. E foi pelo desejo que passei a buscar o que significava ser tua e somente tua. Publicações? Reconhecimento? Meus textos em jornais, revistas, livros didáticos? Site, blogs? Sobre o que escrever? Ficções, notícias, curiosidades? As perguntas que começaram na adolescência me perseguem até hoje e, às vezes, enlouqueço com a repetição do disco. Busco as respostas menos pelo meu ego do que pelo desejo que tenho de entregar-me a você.

No entanto, foi pelo meu ego que, admito, fugi de você; pela ideia, plantada e tantas vezes repetida, de que você não me daria meios de sobrevivência. Quem me disse isso pela primeira vez e quem o repetiu para que eu tivesse medo de me aproximar de você? Quanto mais penso nas afirmações que pautaram minha vida, menos elas fazem sentido.

Não quero detalhar nessa carta os valores que determinaram minhas escolhas, mas posso resumi-los dizendo que, como todo mundo, eu me vi obrigada a escolher entre o sonho e a sobrevivência. E eu poderia ter deixado o sonho ir embora se você, literatura, já não estivesse misturada a mim.

E foi assim que me iludi: disse a mim mesma que conciliaria a sobrevivência e o sonho. Que seria um afastamento temporário, não uma separação de fato. Acontece, porém, que eu nunca fui boa em liderar a mim mesma. Os anos se esvaíram um após o outro enquanto nos tornávamos meras velhas conhecidas.

Encontros e desencontros

No entanto, como você bem sabe, nossas vidas se entrelaçam. Ou melhor, a minha vida está entrelaçada a sua, porque eu não sei viver sem você. Procurei-te em tantos corpos e lugares – até em outros países – para então perceber que, talvez, o seu real significado estivesse em mim. Digo talvez porque uma resposta simplória dessas não me satisfez até hoje. Se assim fosse, não deveria eu para de buscar um significado?

E foi então que, oito anos depois de nos afastarmos, voltamos a nos aproximar. Criei coragem para mostrar ao mundo um pedaço seu que havia dentro de mim: publiquei um livro de contos, o objeto mágico que me proporcionou o título de escritora. Pouco mais de quatro anos depois do lançamento, esse mesmo livro – autopublicado, encadernado à mão e digno – doou-me a coragem e a força para que eu alcançasse todos os lugares aos quais cheguei. O primeiro livro, objeto sagrado, é como o deus de todos os outros, sem o qual nenhum novo passo seria possível.

Sou tua?

Em pouco tempo – quatro anos é um curto período ante a sua vida – tornei-te o princípio e o fim dos meus dias. Posso viver, pensar e fazer outras coisas, mas você está lá, latente, como o meio e o fim de cada passo. Anseio pelos nossos encontros e temo sempre quando algo parece querer nos separar.

Há dias em que penso, contudo, que deveríamos acabar o nosso relacionamento. Melhor ainda, que não poderíamos ter nos conhecido. Sem você, literatura, estou certa de que eu seria outra pessoa. Mas o grande mistério da vida é que não podemos mudar a essência íntima de quem somos, e essa minha essência é você. Portanto, por mais que eu deseje, sou incapaz de te arrancar de mim.

Minha vida é finita, mas a sua permanece, então é natural que você seja maior do que eu. E será maior até o meu fim, não importa o que eu faça. Mesmo assim, te aceito como companheira. Meu último ato – assim como todos os anteriores – será abrir mão de tudo e todos, entregando-os a você, literatura. Cada pedacinho de mundo que busco entender será seu; tudo o que me faz seguir em frente ou voltar atrás, cada amor, gesto, decepção, conquista. Já é tudo seu.

Há muito ainda para te falar, mas seriam apenas conjecturas de futuro. Dentre tudo, quero que saiba o principal: independente do que aconteça, eu não te abandonarei. Nós seremos infinitas juntas.

Sobre o autor

Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).

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Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).