Ritmo da narrativa: como conduzir o leitor ao longo da história

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Somos conduzidos pelas batidas do nosso coração, pelas estações do ano, pelo transcorrer das horas, pelo movimento encadeado que todos os motores fazem para executar suas tarefas. Cada ação, seja dentro ou fora de nós, tem um ritmo próprio – e, por isso, o ritmo da narrativa pode passar desapercebido.

Como estudante de música que sou, aprendi a admirar cada vez mais o ritmo. Ele é uma das principais ferramentas para transmitir emoções. Basta ouvir músicas lentas, rápidas, dançantes, para relaxar para perceber: mantenha as notas e modifique o ritmo e você terá uma nova interpretação da música.

(Meu exemplo favorito disso é o canal do YouTube Postmodern Jukebox, que produz versões vintage de músicas pop atuais)

Pensando na pouca atenção que se dá ao ritmo, decidi escrever este artigo. A importância do ritmo nas narrativas – em especial, nas narrativas gráficas – pode passar desapercebida enquanto escrevemos.

Apesar de se dar muita atenção à elaboração de personagens, enredo, conflito, jornada do herói (tudo que você pode encontrar no meu e-book Guia Básico e Prático de Roteiro para a sua Próxima História em Quadrinhos), não há muito material sobre ritmo.

Portanto, espero que você aproveite o artigo abaixo como uma primeira reflexão sobre o tema e também como incentivo a ouvir o mundo em busca dos ritmos que te rodeiam.

A importância do ritmo na narrativa

A essência da narrativa gráfica é o ritmo. Cada vez que o roteirista e o desenhista escolhem mostrar algo no quadro, eles estão trabalhando com a velocidade em que a história se desenrolará. A grande questão é que, por ser intrínseco ao ser humano, aceitamos tais escolhas sem ficar refletindo muito sobre elas.

Eu posso contar uma história de milhões de anos em uma quadro, assim como posso escrever uma graphic novel de mil páginas sobre um único segundo.

Isso nada mais é do que o poder da escrita de prolongar ou resumir o tempo. E, ao burlar o tempo, o ficcionista dita o ritmo da sua narrativa.

O escritor Luis Antonio de Assis Brasil, em seu livro Escrever Ficção, fala que todo autor trabalha com quatro esferas temporais ao mesmo tempo. São elas:

  • O tempo da escrita (TE): quanto tempo o ficcionista leva para escrever (ex. seis horas);
  • O tempo da narrativa (TN): em quanto tempo acontece o que é contado (ex. três horas);
  • O tempo do personagem (TP): o transcorrer do tempo na percepção do personagem (ex. dez horas);
  • O tempo de leitura (TL): em quanto tempo o leitor lê a história (ex. doze minutos).

Tendo em mente que, ao escrever, estamos trabalhando com outras três variações temporais e que podemos manipulá-las a nosso favor, fica claro que todas as escolhas feitas durante a escrita influenciarão o ritmo da narrativa.

Em música, quando se fala em levada, refere-se ao ritmo que se deve tocar o instrumento. Uma levada de samba no violão, por exemplo, está diretamente ligada à divisão rítmica com o qual o instrumentista deve conduzir a música – e cada gênero musical tem sua levada característica.

Tenho certeza de que você já trabalhou com o ritmo, mas talvez não tenha se dado conta. Seja no tamanho das suas frases, na escolha das cenas, na percepção do tempo do personagem; tudo é determinado pela levada. 

Determinando o ritmo de uma história em quadrinhos

Hora de falar especificamente sobre histórias em quadrinhos. Depois de saber o quanto o ritmo da narrativa é importante, você deve estar se perguntando: e como eu determino esse ritmo?

Adianto que não existe uma resposta direta para isso, já que o ritmo possibilita uma infinidade de variações. No entanto, há alguns elementos sobre os quais o roteirista pode refletir.

Decidindo o número de páginas

O primeiro deles é quantas páginas terá sua HQ. É comum determinar o número de páginas, seja por objetivo ou limite, mesmo em uma webcomic.  Dessa forma, o escritor sabe, de saída, quanto espaço tem para trabalhar.

Feito isso, a melhor opção é planejar a número de páginas necessárias para cada uma das cenas da história. Uma ferramenta útil nesse momento é o argumento, escrito antes do roteiro propriamente dito.

Como comentei no artigo sobre planejamento, no argumento o roteirista escreve todas as cenas da história em tempo presente, já pensando quantas páginas cada um dos atos da narrativa terá.

Escolhendo o gênero da sua história

Por mais discutível que possa ser, enquadrar o sua HQ em algum gênero pode ser útil na hora de elaborá-la. O gênero é um dos fatores determinantes sobre como a narrativa será conduzida e o que será mostrado nos quadros.

Além disso, é através dele também que o leitor entra em contato com o emocional da história.

Uma história de suspense tem um ritmo diferente de uma história de aventura, que tem um ritmo diferente de um romance; e assim por diante. O que é prolongado em uma muitas vezes é ignorado em outra – é tudo uma questão do ritmo da narrativa.


Variando o ritmo ao mudar a diagramação da página

Como mencionei antes, muitas vezes a repetição de um ritmo pode deixar a narrativa monótona. E nas histórias em quadrinhos, existem pelo menos duas formas de variar o ritmo: no tamanho das cenas e na diagramação das páginas.

Ao intercalar cenas longas, médias e curtas, você dará ao leitor a sensação de movimento. Por isso, procure equilibrar a distribuição dos quadros, não resumindo demais os acontecimentos nem explicando tudo nos mínimos detalhes.

Já a diagramação da página é um recurso mais visual. O primeiro contato que seu leitor terá logo depois da virada de página são a quantidade e a disposição dos quadros. Quais efeitos uma página com dez quadros distribuídos em duas linhas podem causar se comparado a uma página com seis quadros distribuídos em quatro linhas?

Mesmo que a diagramação seja um trabalho do desenhista, o roteirista pode e deve determinar a distribuição dos quadros e criar suas pastas de referência, como comento no artigo sobre os principais elementos que todo roteirista precisa conhecer para criar uma boa história em quadrinhos.

Pensando no timing

Timing é a união do tempo e do ritmo. Em outras palavras, é o momento exato em que determinada ação deve acontecer. Podemos pensar nele desde o micro timing – quadro a quadro – até o macro timing – na narrativa como um todo.

O macro timing está entrelaçado com a construção do enredo da narrativa. É o famoso “estava no momento certo, na hora certa”. É ele que causa aquela sensação de “se eu tirar essa cena daqui, toda a história perde o sentido”.

Já o micro timing é o trabalho direto com a passagem de tempo em si. É a forma como eu quero que o tempo seja percebi pelo leitor – mesmo que, como vimos antes, para o personagem, o tempo passe bem mais rápido.

Lembre-se que a história em quadrinhos tem uma vantagem que nenhum outro suporte narrativo tem: congelar o tempo. Na prosa o escritor até pode manter o personagem estático, com algo prestes a acontecer, mas nunca conseguirá manter uma imagem tão forte congelada como em uma HQ.

Como trabalhar o ritmo nos quadros

Existem três perguntas essenciais que você deve se fazer sempre que estiver escrevendo um roteiro de história em quadrinhos:

  • Qual a importância dessa cena? (tanto sozinha quanto no conjunto da narrativa)
  • O que eu quero dizer/mostrar com essa cena? (subtexto)
  • Por quanto tempo eu quero prolongar a tensão?

Lembre-se que, em uma narrativa gráfica, você tem um espaço limitado e o seu suporte é visual. O suporte textual é um auxiliar – ou seja, o máximo deve ser dito através das imagens. Por isso, a determinação da cena e a escolha do ritmo são tão importantes.

Quero voltar ao exemplo que utilizei no artigo sobre os elementos essenciais para um bom roteiro de HQ: um visitante se aproximando da casa, prestes a bater na porta.

Se a cena for casual e corriqueira, basta resumi-la em dois quadros. No entanto, se o objetivo for dizer algo mais com o intuito de aumentar a expectativa do leitor, é possível prolongar a chegada a casa por vinte, trinta quadros.

Há de se levar em conta outro fator: a monotonia. Ao repetir um ritmo ou prolongar por muito tempo uma cena, o roteirista corre o risco de se tornar monótono.

Digamos que a chegada até a porta da casa leve dez quadros, mas, quanto mais o visitante se aproxima, mais chata se torna a chegada porque o leitor já se cansou do que viu. Se no início ele estava envolvido com a narrativa, no final ele só vê mais do mesmo. Em outras palavras, não há nada novo.

O ritmo da narrativa é uma espécie de mensagem que você entrega ao seu leitor. A monotonia, a repetição, a aceleração, o prolongamento, a fluidez; todas devem ser escolhas conscientes para que sua história em quadrinhos seja lida como você a escreveu.

Para tanto, é essencial ter um bom planejamento do que você irá escrever. Você só conseguirá realizar a gradação de conflitos se tiver uma narrativa bem planejada. Depois que tiver uma rota traçada, o ritmo surgirá naturalmente.

Conduza seu leitor pela história

É como dizem: tudo tem o seu tempo – e com as histórias não podia ser diferente. O ritmo da narrativa é um assunto inesgotável, mas que deve ter a devida atenção de qualquer escritor.

Apesar de ser intrínseco ao ser humano, ter consciência da velocidade em que sua história será contada antes de começar pode economizar tempo e facilitar o trabalho.

Seu papel como roteirista é pegar o leitor pela mão e conduzi-lo pela narrativa. É por isso que planejar, estruturar a narrativa, pensar na gradação do conflito e no timing dos acontecimentos é tão importante.

Pronto para convidar o leitor para a sua dança?

Lembre-se que, se precisar de ajuda e quiser aprofundar ainda mais os seus conhecimentos em roteiro, leia o meu Guia Básico e Prático de Roteiro para a sua próxima História em Quadrinhos.

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Sobre o autor

Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).

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Mylle Silva

Mylle Silva é escritora, roteirista e professora de Escrita Criativa. Graduou-se em Comunicação Social pela PUCPR e dedica-se à escrita desde que se conhece por gente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014) e é roteirista das histórias em quadrinhos A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha (2017).