Stephen King sobre como aprender a fazer boas descrições lendo e escrevendo de quatro a seis horas por dia

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“A chave para a boa descrição começa com uma visão clara e termina com uma escrita clara, do tipo que usa imagens novas e vocabulário simples.”

Há mais de um século, Anton Tchekhov, em uma carta para seu irmão mais velho Alexander, enumerou seus seis princípios para uma boa escrita, colocando em primeiro lugar “descrições verdadeiras de pessoas e objetos” seguido de “total objetividade, extrema brevidade; compaixão, nada de efusões político-sociais-econômicas, audácia e originalidade”.

Tchekov, na época com 26 anos, havia se formado em medicina apenas dois anos antes e já publicava seus contos em um dos jornais mais proeminentes de São Petersburgo, o Novoe Vremya.

Considerado um dos precursores do modernismo mesmo falecendo 30 anos antes do início do movimento, Tchecov publicou cerca de 600 obras nos seus 44 anos de vida, firmando seu legado com um dos maiores contadores de histórias da humanidade.

Setenta anos depois, Stephen King publicava Carrie, a estranha, livro que, mesmo sendo de um estreante, o colocaria no hall dos escritores mais reconhecidos do nosso tempo. 

Em Sobre a Escrita: a arte em memória, Stephen King conta parte de sua história pessoal e, assim como Tchekhov, abre sua caixa de ferramentas aos que, como ele, querem trilhar o caminho da escrita.

Ecoando a metáfora de Neil Gaiman de que para ser um bom escritor é preciso estar disposto a andar pelado na rua, Stephen King relaciona medo e má escrita.

“Estou convencido de que o medo é a raiz de toda má escrita. Se você escreve por prazer, o medo pode ser moderado — timidez é a palavra que usei aqui. Se, no entanto, estiver trabalhando sob pressão, com um prazo apertado — um trabalho escolar, um artigo de jornal, uma redação do vestibular —, o medo pode ser grande. Dumbo aprendeu a voar com a ajuda da pena mágica; você pode precisar usar a voz passiva ou algum desses lamentáveis advérbios pela mesma razão. Lembre-se, porém, antes de recorrer a esses artifícios, de que Dumbo não precisava da pena, a mágica estava nele.”

Ele lembra, no entanto que, apesar da magia já estar em cada um de nós, é preciso trabalhar todos os dias para melhorá-la, com longas sessões de leitura e escrita.

“O programa exigente de leitura e escrita que defendo — quatro a seis horas por dia, todos os dias — não vai parecer exaustivo se você realmente gostar de fazer e tiver aptidão para as duas coisas; na verdade, pode ser que você já o siga. Se você acha que precisa de permissão para se dedicar a toda leitura e toda escrita que seu coraçãozinho deseja, considere-se autorizado por este que vos fala. A verdadeira importância da leitura é criar intimidade e facilidade com o processo de escrita; ou seja, chegar ao país dos escritores com os documentos e as identificações em ordem.”

Stephen King é um dos muitos escritores que defendem a leitura constante como forma de aprendizagem. É a leitura que coloca nós, escritores, em um estado mental de “paixão sem inibição”, além de nos ajudar a identificar as técnicas que ainda funcionam e as que ficaram datadas.

Ilustração de Stephen King, autor desconhecido (via Pinterest)

Na sexta parte do capítulo Caixa de Ferramentas, o autor fala sobre técnicas descritivas. Logos na primeira frase ele afirma que “a descrição é o que transforma o leitor em um participante sensorial da história.” Claro adepto do mostre, não conte, também eternizado por Tchekhov, Stephen King cita outra vez o seu programa exigente como a única forma de chegar a uma boa descrição:

“A boa descrição é uma habilidade que se aprende, uma das principais razões pelas quais você não consegue ser bem-sucedido a não ser que leia e escreva muito. Não é apenas uma questão de como fazer, mas também de quanto fazer. A leitura vai ajudar você a saber quanto, e só resmas e resmas de escrita vão ajudar com o como. Você só vai aprender fazendo.”  

E continua, usando um exemplo similar ao exercício proposto por Virginia Woolf para experienciar a escrita e tornar a leitura mais ativa.

“Todos nós já ouvimos alguém dizer: “Cara, foi tão fantástico (ou horrível / estranho / engraçado) que eu nem sei como descrever!”. Se quiser ser um escritor de sucesso, você precisa ser capaz de descrever a cena, e de uma maneira que faça o leitor sentir um comichão de reconhecimento.”

No entanto, Stephen King alerta que a descrição não precisa ser feita nos mínimos detalhes. É preciso, como tudo na escrita, buscar um equilíbrio nas informações que transmitimos aos nossos leitores.

“Não é preciso fazer um resumo, espinha por espinha, saia por saia. Todos nós temos na lembrança a imagem de um dos excluídos da época de escola; se eu descrever a minha, vou congelar a sua, e assim perco um pouco da identificação mútua que quero forjar. A descrição começa na imaginação do escritor, mas deve terminar na do leitor.
(…)
Para mim, a boa descrição consiste em apenas alguns detalhes bem-escolhidos que vão falar por todo o resto. Na maioria dos casos, esses detalhes serão os primeiros a lhe ocorrer. E certamente vão ser o bastante para começar.”

Uma das maneiras de fazer com que a descrição surpreenda o leitor é com o uso metáforas. Quando bem escolhidas, essas figuras de linguagem são capazes de dizer em poucas palavras o que nem o maior dos textos conseguiria. No entanto, alerta o autor, usar metáforas clichês pode fazer com que o leitor abandone o seu livro.

“O uso da metáfora e de outras figuras de linguagem é uma das grandes delícias da ficção — na escrita e na leitura, também. Quando acerta o alvo, uma metáfora nos agrada tanto quanto encontrar um velho amigo em meio a uma multidão de desconhecidos.
(…)
A metáfora zen [uma metáfora sem pé nem cabeça] é apenas uma das arapucas das figuras de linguagem. A mais comum — e, de novo, cair nesta armadilha geralmente significa falta de leitura — é o uso de metáforas, símiles e imagens clichês. Ele correu “como um louco”, ela era linda “como um dia de verão”, o cara era um “bilhete premiado”, Bob lutou “como um tigre”… não me faça perder meu tempo (ou o de qualquer um) com coisas tão manjadas. Isso faz com que você pareça preguiçoso ou ignorante.”

Apesar de Stephen King ser enfático na sua máxima de que só se aprende a escrever escrevendo, ele reconhece que não é possível chegar à perfeição e reflete se seria mesmo necessário escrever um texto perfeito.

“Como em todos os outros aspectos da arte narrativa, você vai melhorar com a prática, mas ela nunca vai levar à perfeição. E por que deveria? Qual seria a graça disso? E quanto mais se esforçar para ser claro e simples, mais você vai aprender sobre a complexidade do seu idioma. Ele pode ser escorregadio, precioso; sim, ele pode ser muito escorregadio. Pratique a arte, sem se esquecer de que seu trabalho é dizer o que vê, e depois seguir em frente com sua história.”  

Complemente essa leitura explorando todas as ferramentas narrativas do livro Sobre a Escrita: a arte em memória, revisitando dicas de King, Tchekhov e outros grandes nomes da literatura, compreendendo como a leitura de um livro pode potencializar a sua liberdade e descobrindo porque você deveria pensar duas vezes antes de largar tudo para ser escritor.

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Quem escreve sobre escrita

Mylle Silva

É escritora, roteirista de histórias em quadrinhos e instrutora de escrita criativa. Formada em Comunicação Social, ministra oficinas e ajuda pessoas a transformar ideias em histórias e sonhos em projetos.

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